08 de julho de 2026
Saúde

Doença silenciosa

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 5 min

Ela é uma doença que, na maioria dos casos, não apresenta sintomas. Seu crescimento é lento e progressivo e pode levar à morte súbita. Seu diagnóstico é feito, em geral, ocasionalmente em exames clínicos realizados para investigação de outras doenças. Silencioso, o aneurisma da aorta abdominal acomete milhares de pessoas no mundo, mas pode ser corrigido através de intervenção cirúrgica.

Os aneurismas são definidos como dilatações localizadas e permanentes da parede de uma artéria, maior do que 50% do seu diâmetro normal. Eles podem ocorrer em qualquer região do organismo. Os mais conhecidos são os cerebrais, entretanto, mais comuns são os que acometem a aorta - maior artéria do corpo humano, que nasce no coração e distribui o sangue por todos os tecidos e órgãos.

“85% dos aneurismas são da aorta abdominal infra-renal e o restante é da aorta torácica ou, em conjunto, daquilo que a gente chama de aneurisma torocoabdmoninal. Isso sem considerar o aneurisma intracraniano”, explica o cirurgião vascular, Cláudio Gabriele.

Os aneurismas não diminuem de tamanho, tampouco podem ser tratados com medicação. Entretanto, podem não evoluir, descartando a necessidade de cirurgia. Nesses casos, o controle da doença deve ser feito semestralmente, por meio de ultra-sonografia ou tomografia computadorizada.

A importância do reconhecimento da doença reside na prevenção da ruptura (rotura) da artéria. “Cinco litros de sangue passam pela aorta por minuto. A hora em que ela rompe, o paciente entra em choque hemorrágico. Isso provoca determinadas conseqüências, que levam o paciente à óbito”, diz Gabriele.

O médico ressalta que, quando ocorre a rotura de um aneurisma da aorta, 50% dos pacientes não conseguem chegar vivos ao hospital. Para os que chegam, o índice de mortalidade varia de 50% a 90%.

Em compensação, se o paciente que não apresenta sintomas for submetido a cirurgia eletiva (agendada), isto é, sem rotura, o risco de mortalidade gira em torno de 5%.

Dois terços dos pacientes que têm aneurisma necessitam de tratamento cirúrgico, devido a evolução da doença.

Ruptura

No aneurisma da aorta abdominal, é muito rara a ocorrência de ruptura até o diâmetro da artéria atingir 5 cm. A partir daí, o risco aumenta progressivamente, havendo indicação cirúrgica.

A ultra-sonografia é o exame mais comum para o diagnóstico da doença. “Muitas vezes, o paciente chega num pronto-socorro com uma dor lombar ou abdominal e é pedido ultra-som para investigar aquele sintoma. Pensam que é uma cólica de vesícula ou uma cólica renal, mas é um aneurisma que está crescendo”, diz.

O aneurisma da aorta é assintomático em mais de 80% dos casos, de acordo com o cirurgião Alexandre Anacleto, chefe do grupo de Patologias de Aorta do Hospital Beneficiência Portuguesa, de São José do Rio Preto, considerada uma unidade de referência na área.

Na maioria das vezes, o paciente que apresenta dor intensa no abdome ou região lombar necessita ser submetido a cirurgia com urgência, já que esses sintomas são indicativos de grandes dilatações, em iminência de ruptura. Em alguns casos, o próprio paciente observa algo que pulsa de forma exagerada no abdome e procura ajuda médica.

Os aneurismas da aorta abdominal tendem a crescer até se romperem. A velocidade de crescimento varia em cada paciente. Sabe-se que, quanto maior o aneurisma, maior é a velocidade de seu crescimento. Entretanto, a intervenção cirúrgica garante a correção do problema.

“O aneurisma tem cura ideal. É diferente de um paciente que tem câncer, tumor, que vai se submeter a uma cirurgia paliativa para melhorar a qualidade de vida”, compara Gabriele.

Na avaliação do cirurgião, a idade, isoladamente, não pode ser um fator de contra-indicação para a cirurgia. Segundo ele, pacientes com idade superior a 80 anos já foram submetidos ao procedimento e tiveram bons resultados. “Nenhum paciente pode ser, de imediato, contra-indicado para uma cirurgia. A opção de não operar um aneurisma com indicação cirúrgica é sempre do próprio paciente”, observa.

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Saiba mais

• A tendência natural dos aneurismas é o crescimento lento e progressivo, o que ocorre em 80% dos casos;

• A indicação cirúrgica é fundamentada no risco de rotura. São indicadores para os homens aneurismas com diâmetro de 5 cm, e para as mulheres de 4,5 cm;

• Como os aneurismas crescem, em média, cerca de 0,5 cm por ano, a indicação cirúrgica pode ser justificada em diâmetros de 4 cm a 4,5 cm, com o propósito de intervir antes que seja atingida a dimensão crítica;

• Tabagismo, hereditariedade, hipertensão arterial são fatores de risco relacionados ao desenvolvimento do aneurisma;

• A aorta abdmoninal infra-renal é o local onde o aneurisma ocorre com maior freqüência, vindo, a seguir, os segmentos torácicos e toracoabdominais, podendo comumente envolver as artérias viscerais;

• Nos EUA, o aneurisma é a terceira causa de morte súbita e a 13.ª causa de morte geral. Cerca de 6,5% dos homens acima de 60 anos tem aneurisma da aorta em desenvolvimento. A incidência é menor na população feminina;

• A ultra-sonografia é o exame mais comum para a localização de um aneurisma da aorta, por sua simplicidade e baixo custo. Ela tem sido cada vez mais preconizada por médicos e adotada como exame de rotina em homens idosos (grupo de maior incidência da doença). Quando detalhes mais minuciosos são necessários é realizada tomografia computadorizada ou a ressonância magnética;

• A maioria dos aneurismas da aorta abdominal é assintomática. Esporadicamente, o próprio paciente descobre algo que pulsa de forma exagerada no abdome e procura o médico.

Fontes: Livro “Fundamentos da Cirurgia Vascular e Angiologia”; e cirurgiões vasculares Cláudio Gabriele e Alexandre Anacleto

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Enfraquecimento

O cirurgião vascular Alexandre Anacleto explica que os aneurismas da aorta mais comuns são causados por um enfraquecimento da parede da artéria por degeneração, estimulado por tabagismo, pressão alta, arteriosclerose e alterações das proteínas que formam a parede da aorta (colágeno e elastina). Essas alterações podem ser consideradas hereditárias. Na maioria dos casos, os pacientes são pessoas idosas. “Os aneurismas estão presentes em 6,5% dos pacientes homens, com idade acima de 60 anos, em especial tabagistas, e que tenham na família parentes com história de aneurisma da aorta”, diz Anacleto.

Bem mais raros, segundo ele, são os casos de aneurismas congênitos (de nascença), que ocorrem em pacientes muitos jovens. Há também os aneurismas de origem inflamatória e infecciosa.

“Alguma infecção que agrediu e enfraqueceu a parede da artéria - normalmente também a aorta abdominal - pode levar à formação de um aneurisma”, explica o cirurgião vascular Cláudio Gabriele.