08 de julho de 2026
Articulistas

Farinhas do mesmo saco


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O grande orador e político romano Marcus Tullius Cicero (morreu em 43 a.C) fez uma série de discursos contra os políticos que pilhavam a Sicília, governada por Caio Verres. As suas alegações foram compendiadas em as “Orações Verrinas”, título alusivo ao chefe dos corruptos. Essa coleção permanece como uma das obras-primas da arte oratória romana. “Verrina” significa uma reprovação severa, uma crítica acre, no nosso vernáculo. Mais tarde, após a morte de Júlio César, Cícero quis uma renovação política em Roma e apoiou Otávio contra Marco Antonio. Seu candidato, embora não sendo torneiro-mecânico, profissão inexistente à época, era filho adotivo de Júlio César. Trazia uma herança não-genética mas que deveria ter recebido por osmose - a honestidade do pai adotivo. Com toda certeza seria um administrador sério, competente, capaz de pôr fim, de uma vez por todas, à farra com o dinheiro público. Cícero sofreu horrores com o seu posicionamento mas, a esperança venceu o medo e sua campanha sagrou-se vitoriosa. Eis que, Otávio, no poder, une-se a Marco Antonio e os mensalões até melhoram substancialmente, para alegria dos senadores romanos. Cícero sintetizou sua decepção com quem havia ajudado a eleger e a situação política da sua época com apenas duas palavras: “jusdem farinae”, ou, bem traduzido, “farinha do mesmo saco”. Hoje, a diferença é que em vez de saco usam malas e, na Daslu, as malas pelo menos são Louis Vuitton.

Cícero morreu logo depois, provavelmente de desgosto, depois de lutar a vida inteira por um país mais justo, onde os interesses coletivos fossem respeitados e colocados acima – mas muito acima – dos individuais.

“Que país é este?”, perguntava aqui mesmo no Brasil, perplexo, um político dos anos 70, o mineiro do Piauí Francelino Pereira. De nada adiantou o sacrifício de 4 milhões de índios que aqui viviam livres e contentes quando Cabral aportou trazendo a sífilis, o tifo e a difteria. Em vão a morte de 6 milhões de negros arrebatados de seus lares e de suas famílias para ajudarem a construir com as próprias mãos um país de verdade. Inútil a resistência de Zumbi no Quilombo dos Palmares, a derrota infringida a Domingos Jorge Velho (1692), as traições que resultaram na morte dos seus companheiros cujas 3.900 orelhas foram levadas como troféus ao vice-rei. Devemos desculpas à memória dos heróis mortos nas batalhas para expulsão dos invasores franceses, espanhóis, holandeses e depois dos portugueses, para que este País tivesse um território íntegro, livre e de todos os brasileiros. Os sonhos liberais de Frei Caneca e a liderança do movimento republicano resultaram na sua condenação à morte (1825). Não foi enforcado porque o carrasco negou-se a exercer o ofício, bem como seus ajudantes e os presos da cadeia, mesmo sob promessas de liberdade. Acabou fuzilado. Mal sabe que seus sonhos se transformaram em insanos delírios.

De nada valeram as veementes perorações civilistas de Rui Barbosa, a luta pelo voto direto, a abolição da escravatura. “De tanto ver triunfar as nulidades”, o brasileiro continua a “ter vergonha de ser honesto”. Que nos perdoem os revolucionários paulistas de 1932 que morreram nas trincheiras porque acreditaram na Democracia. Lamentamos o martírio dos pracinhas da FEB tombados na neve dos Apeninos. Triste ironia é saber que hoje, guerrilheiros urbanos contra a ditadura militar, libertados na troca pelo embaixador britânico seqüestrado, não fazem jus à coragem dos seus libertadores e muito menos aos ideais professados.

Que país é este? “Que bandeira é esta que impudente no mastro tripudia?” – indignava-se Castro Alves. Que nos desculpem tantas mães que choraram os filhos mortos com a certeza de que estavam ajudando a construir uma Nação. A cada noticiário repetimos baixinho, para nós mesmos, o que Cícero disse em alto e bom som: “farinhas do mesmo saco”. Diante tanta corrupção e safadeza o brasileiro perdeu a capacidade de se indignar. Fosse na Bolívia ou no Equador o povo estaria nas ruas exigindo mudanças: “Que se vayan, que se vayan todos”.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC