A recente divulgação na Internet de fotos e filmagens em que adolescentes aparecem em cenas de sexo despertou toda a sociedade para um problema que tem sido cada vez mais freqüente: o mau uso da rede mundial de informações.
A facilidade de acesso e a falta de controle favorecem o crescimento dos crimes virtuais como um todo, mas é o envolvimento dos jovens nesses episódios que chama especialmente a atenção. Pais, especialistas e os próprios adolescentes têm se mostrado inseguros e ninguém sabe exatamente como se proteger.
Um dos casos de maior repercussão ocorreu no final de junho, quando uma adolescente de 17 anos descobriu na Internet uma imagem sua fazendo sexo com o namorado. Um amigo do rapaz teria filmado o casal e espalhado as cenas por e-mail.
O fato desencadeou uma avalanche de problemas na vida da jovem e de sua família. Um deles foi com a caçula, de 11 anos, que está traumatizada, segundo a mãe. Ela recebeu as imagens de uma colega, que perguntou se aquela no vídeo não era a irmã dela.
Apesar de ter o consentimento da família para manter relações sexuais com o namorado, a adolescente não suportou o constrangimento de ser exposta na Internet e pediu à família para mudar de cidade.
A Justiça determinou a internação provisória dos dois rapazes responsáveis pela divulgação das imagens por 45 dias, mas eles deixaram o abrigo no dia seguinte, graças a um habeas-corpus.
Poucos dias depois, outra jovem de 15 anos foi surpreendida com imagens suas na Internet. Uma foto tirada com um aparelho celular por um colega teria flagrado a jovem fazendo sexo oral com outro adolescente dentro de uma das escolas mais tradicionais do Rio de Janeiro. Os três foram afastados da escola e o Ministério Público investiga o caso.
Fácil e rápido
Professor do Departamento de Computação da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, Wilson Yonesawa comenta que hoje é muito fácil adquirir equipamentos de informática. Uma câmera (webcam) custa cerca de R$ 100,00 e pode ser instalada por qualquer pessoa. Os aparelhos celulares mais modernos também captam imagens e as câmeras digitais que fotografam e filmam já são mais acessíveis.
“Boa parte dos adolescentes já tem acesso a esses equipamentos. O difícil é saber o que eles vão fazer com as imagens que capturam e é aí que tem ocorrido casos de invasão de privacidade. A pessoa que é flagrada em situação comprometedora até pode processar quem divulgou, mas a imagem já vai estar disponível e ninguém apaga esse prejuízo”, observa.
Indagado sobre qual deveria ser a atitude dos pais para coibir situações indesejadas, Yonesawa recomenda, antes de tudo, o diálogo.
“Você até pode adotar uma ação de bloqueio do computador, mas os jovens estão sempre à frente quando o assunto é tecnologia e eles logo descobrem uma forma de desbloquear a máquina. Também não adianta tirar o computador de casa, porque ele vai usar o computador da escola ou de um amigo e você não vai conseguir desenvolver uma quantidade tão grande de dispositivos de segurança”, afirma.
Na opinião dele, orientar é o melhor caminho. “É importante observar o que seus filhos fazem na Internet, principalmente os pequenos. Saber com quem eles falam, quem são seus amigos e orientar sobre o que fazer ou não fazer pela Internet, o que postar ou não, mostrando os perigos que isso representa. Porque a chance do outro gravar e espalhar uma imagem ou informação é gigantesca e só Deus sabe quem está do outro lado da linha”, alerta.
O professor destaca que a Internet mudou muito o relacionamento das pessoas e que é comum ter amigos que não se conhece fisicamente. “É fácil mentir pela tela, você dificilmente consegue perceber a real intenção de alguém pelo monitor. Então, é importante não falar muito da sua vida pessoal, não mandar certas fotos, não passar endereço, telefone. Infelizmente, a Internet virou ferramenta do bem e do mal, então, precisamos nos preservar”, admite.
E diante de qualquer suspeita, Yonesawa recomenda que se procure a polícia. “Tecnicamente, você pode bisbilhotar, investigar, saber a origem do que recebe, mas isso exige maior conhecimento técnico e só um especialista (mediante autorização judicial) pode fazer isso”, encerra.
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Dicas de ‘navegação’
Para todos
• Número de documentos, endereço e telefone pessoais não devem ser citados em salas de bate-papo, sites de visitação pública ou para amigos virtuais
• Hábitos rotineiros (horários de sair e chegar, datas de viagem, destino de viagem) não devem ser comentados com estranhos
• Desconfie de toda proposta que pareça muito tentadora, pois pode ser um golpe
• Desconfie das informações prestadas por um desconhecido; é muito fácil se fazer passar por outra pessoa no mundo virtual
• Se decidir marcar um encontro pessoal com um conhecido virtual, opte por lugares movimentados, vá sempre acompanhado (você não sabe quem vai encontrar de fato) e deixe o endereço do local onde vai com alguém da família
• Cuidado com as fotos ou filmagens que passa para seus amigos, pois eles poderão passá-las adiante
• Se uma situação ou proposta lhe parecer suspeita ou ameaçadora, procure a polícia
Para os pais
• Observe com quem seus filhos se relacionam, seja no mundo real ou no mundo virtual
• Procure navegar pela rede junto com seus filhos, indicando situações de risco
• Mostre reportagens sobre golpes na Internet para alertá-los
• Mantenha um diálogo franco com seus filhos para que eles se sintam à vontade para contar coisas que acontecem com eles
Para os jovens
• Procure ‘navegar’ apenas em sites confiáveis
• Desconfie quando alguém começar a fazer muitas perguntas
• Jamais dê detalhes de sua vida pessoal ou da de seus familiares
• Se receber propostas suspeitas ou desagradáveis, avise seus pais
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Crimes
De acordo com o titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Bauru, J.J. Cardia, a exposição indevida e não autorizada de terceiros em situação vexatória é considerada crime.
Isso inclui a divulgação de fotografias de pessoas praticando atos sexuais, pessoas nuas, pessoas no vaso sanitário, montagens em que a foto de alguém é colada numa imagem de pessoa nua ou mesmo mensagens escritas em que pessoas ou empresas são atacadas.
“E nós temos chegado à autoria desses crimes, porque eles deixam rastro. Basta a autorização judicial - e nós temos obtido isso - e o servidor é obrigado a indicar quem fez uso da Internet naquele dia. Isso tem trazido muitos problemas para quem veicula essas mensagens”, alerta.
Segundo o delegado, a punição, nesses casos, depende da gravidade da informação veiculada e da intensidade do prejuízo à vítima. Ele informa que os casos mais freqüentes são de calúnia e difamação.
“Caluniar alguém, imputando-lhe falsamente autoria de um fato definido como crime, pode render pena que varia de seis meses a dois anos. Difamar alguém, imputando-lhe fato ofensivo à sua reputação, a pena é de detenção de três meses a um ano”, informa.
Cardia destaca que Bauru não tem registrado casos de exposição de adolescentes, mas a psicóloga Dalva Taborianski lembra que tal prática vem se disseminando no País e cabe aos pais alertar, orientar e fiscalizar seus filhos.