08 de julho de 2026
Saúde

Redução de estômago impõe desafios

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 5 min

Na busca por um corpo mais magro e saudável, muitas pessoas obesas têm recorrido à cirurgia de redução do estômago. Especialistas alertam, entretanto, que o procedimento não deve ser enxergado como uma saída simples e rápida para o problema de excesso de peso, e sim parte de um tratamento que, a longo prazo, exige acompanhamento psicológico e mudança de hábitos alimentares.

No pós-operatório, a ausência desses cuidados pode levar o paciente a não obter os resultados desejados, como a perda prevista da quantidade de peso. E as conseqüências não param por aí. Pesquisa realizada por um grupo de estudo multidisciplinar do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), composto por cerca de dez profissionais, apontou que alguns pacientes submetidos à cirurgia têm apresentado distúrbios como alcoolismo, anorexia, bulimia, bruxismo (ranger os dentes durante o sono) e novo ganho de peso - cinco anos ou mais após a cirurgia. O objetivo da pesquisa, que ainda está em andamento e envolve 63 pacientes, é demonstrar que só a operação não é suficiente para o sucesso do tratamento.

Segundo a assessoria de imprensa da Agência USP de Notícias, de um grupo de pacientes operados pela técnica Fobe-Capella entre cinco e nove anos atrás, 13% voltou a um estado de obesidade mórbida, com índice de massa corpórea (IMC) superior a 40. O índice é o mais utilizado por especialistas para medir o peso ideal. No cálculo, divide-se o peso (em kg) pelo quadrado da altura (em metros). Com a cirurgia, é esperado que o paciente elimine de 40% a 50% do excesso de peso.

“Esses distúrbios têm acontecido por várias razões. A principal delas é a não mudança de hábito alimentar do paciente submetido à operação. No começo, ele sofre a imposição restritiva da operação, mas depois o organismo se acostuma e ele continua comendo alimentos que engordam, e de forma compulsiva”, diz o coordenador do grupo de estudo Bruno Zilberstein, chefe do serviço de cirurgia da obesidade mórbida do HC.

Nos primeiros dois anos após o procedimento cirúrgico, segundo o médico, os pacientes em geral perdem peso rapidamente. Mas depois, alguns aprendem a ‘driblar’ as restrições impostas pela cirurgia. “Ele aprende a comer alimentos mais pastosos. Ele toma leite moça, come coxinha, e com isso ‘engana’ a operação. Como ele não seguiu uma orientação adequada e não procurou mudar seu comportamento alimentar, volta a engordar”, ressalta.

A cirurgia obriga necessariamente o paciente a ingerir pequenas quantidades de alimentos e mastigar bem, já que o estômago não admite excessos. Entretanto, segundo o médico, essas dificuldades não impedem que os pacientes criem estratégias. “Ao invés de almoçar em 20 minutos, alguns ficam almoçando durante duas horas. Eles ingerem alimentos em pequenas quantidades, mas não páram de comer, embora não tenham fome”, diz.

Alcoolismo

Outro dado que tem chamado a atenção dos pesquisadores é que alguns pacientes submetidos à cirurgia substituem a compulsão alimentar por outro tipo de compulsão. A incidência de alcoolismo observada em 18% dos pacientes estudados é um dos exemplos que preocupa os especialistas.

“Às vezes, ele sofre um desvio de comportamento e ao invés de comer compulsivamente começa a beber, vira bulímico, ou seja, insiste em comer, mas vomita. Ou entra num outro extremo e, com medo de engordar, vira anoréxico”, complementa Zilberstein.

Segundo ele, após a operação, o paciente deve ter acompanhamento multidisciplinar - envolvendo médicos, psicólogos e nutricionistas - para ajudá-lo a resolver os problemas que o levou à obesidade mórbida.

“Foi passada a idéia de que a cirurgia seria o fim dos problemas. E os pacientes entram com essa fantasia de que depois de fazer essa cirurgia nunca mais vão engordar e estarão resolvendo todos suas questões, inclusive emocionais. Mas a obesidade é um sintoma de problemas anteriores a isso. Existe uma angústia interna que precisa ser resolvida. A cirurgia representa uma grande ajuda, tem o papel de emagrecimento, só que a manutenção de tudo isso depende do bem-estar do paciente”, diz a psicóloga do HC Marlene Monteiro da Silva. Segundo ela, aproximadamente 80% dos pacientes obesos apresentam um quadro de depressão tanto antes quanto depois da operação.

O cirurgião de Bauru Wagner Schwerdtfeger, membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica, ressalta a necessidade dos médicos informarem claramente os pacientes sobre as dificuldades enfrentadas no pós-operatório e sobre a necessidade de mudança do comportamento alimentar.

“O obeso muitas vezes quer fugir para a cirurgia, até por desconhecimento, porque acredita que não terá que fazer mais dieta. Ele está enganado. Ele terá que mudar seu comportamento”, ressalta.

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Resultados

Após a cirurgia, espera-se que o paciente emagreça a quantidade almejada e, depois, engorde dez quilos novamente. Entretanto, o estudo que vem sendo realizado pela equipe do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), apontou que entre 63 pacientes pesquisados, 58,5% ganhou mais que dez quilos, 39,6% mais de vinte quilos e 13,2% engordou mais de trinta quilos. Somente 7,84% dos pacientes mantiveram o peso ideal ou emagreceram demasiadamente (nos casos de bulimia e anorexia), segundo a assessoria de imprensa da Agência USP de Notícias.

“Trata-se de resultados brutos e ainda não foram feitos estudos estatísticos. Os dados não foram correlacionados com as questões orgânicas e a integridade da cirurgia”, explica a psicóloga do HC Marlene Monteiro da Silva.

A pesquisa também está levantando dados a respeito de distúrbios odontológicos inéditos. Para tanto, foram selecionadas 45 pessoas que se submeteram à cirurgia para redução do estômago e 40 não obesos da mesma faixa etária, que fazem parte do grupo de controle.

Os resultados obtidos até o momento mostram que 80% dos pacientes operados estavam com os dentes quebradiços e 60% apresentavam aumento no número de cáries. Esses problemas foram observados tanto em pacientes vindos do Sistema Único de Saúde (SUS) quanto de planos de saúde particulares, o que mostraria que a situação está pouco ligada à classe socioeconômica dos operados.

Segundo a dentista Vera Lúcia Kogler, os motivos exatos desses problemas ainda estão sendo estudados. “Porém, isto pode estar relacionado com um problema na absorção de nutrientes já observado; com refluxos gastro-esofágicos; com um ressecamento da boca, fruto da medicação administrada ou ainda com vômitos”.

A dentista ressalta que, apesar dos problemas, a cirurgia continua sendo a indicação para pacientes com obesidade mórbida. “Entretanto, teremos que estudar os problemas que estão sendo observados nos pacientes para impedir que isso aconteça”, diz

Da Redação/ Com Michelle Roxo