08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Areia que escapa dos dedos


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Um, dois, três, agora minha carta começou. Vem por aí, como todos esperam, muitas críticas aos defeitos do mundo, do país e da cidade. Decrepitudes humanas e dicionários. Esperam que eu fale do Roberto Jéferson e do buraco na rua de casa. Outros preferem exigir uma dissertação em formato de vestibular. Algo que os faça pensar.

Mas não, esta carta não é pra fazer pensar! Você pode fazer tudo, menos pensar. Eu te dou a liberdade! Pode ler o que eu escrevo, vamos, leia, leia e leia, vão com os olhos pra lá e pra cá no mudar de cada linha vá descendo o olhar e leia, leia, leia, leia porque eu tenho muita coisa cabeça pra te falar. E aos que esperam que eu tenha um texto sobre minha indignação ao sistema educacional, que pensam que eu defendo a discussão do teatro, poesia, filosofia, homossexualismo, não pense nisso. Eu vim defender o não pensar.

Uma carta bem sucinta, dando uma pinçada nas polêmicas eternas do século 21, concisa como se fosse um site de variedades. Talvez até com algumas citações, ora Drummund, ora Cazuza, ora Lacan, ora Freud, ora Shakespeare, ora Bárbara Heliodora. Alguns eu posso até inventar, como se fossem conhecidos, tipo Antunes Filho e Gerald Thomas. Alguém ri de mim do outro lado do mundo quando lê isso. Começa tudo aqui: “Eu tenho o catálogo das respostas da vida: suicídio”. Agora começou outro papo cabeça “o que importa não é o fim, mas o caminho percorrido”.

Agora começou outro “eu dou o gabarito da apostila inteira porque quem não quer passar no vestibular está na sala errada”. Não pensar, nem raciocinar, nem decidir, é só anotar, escrever, sugar, meus leitores poríferos! Sugar... Vou vomitando, falando, dando ordens, decidindo planos, cumprindo metas que no fim das contas, você vai me agradecer. Amor. Sexo. Drogas. Use preservativo neste carnaval. Não tem que fazer sentido. Sentido é pra lógicos, lógicos pensam: Maçada!

Vai outro dos bons: “Apresento a vocês uma porcentagem da minha técnica Humanidades Exatas, exemplificadas melhor em minha tese de sei lá eu o que, ainda não tenho idade: Coubert + produção de artigos de luxo = incentivo ao mercantilismo. Como assim? Sei lá. Dá o fora! Liga pro pai! Esse menino não tem jeito. Diretora! Pastor! Isso aí é viagem de droga dele. Dá um jeito nele! Oprime isso, oprime! Dá Deus pra ele! Já está namorando já? Não!”. Prático, não pense! É sarro do menino estranho, porque rir é tudo. É um abraço apertado, com as mãos retorcidas de ódio contra ti. Leia a próxima carta, e o jornal inteiro e o mundo que se apóia, cansado, na sua janela.

Límerson Morales Costa - estudante de teatro “Sempre e Artista Mais que Sempre”