10 de julho de 2026
Geral

Apesar da crise na saúde, análise setorizada põe Bauru em 3º em SP

Lilian Venturini
| Tempo de leitura: 4 min

Ainda no calor da discussão do fechamento dos prontos-socorros Mary Dota e Ipiranga, da deficiência do serviço de hemodiálise e mamografia, Bauru tem uma boa notícia na área de saúde. Em 2004, a cidade alcançou a meta de 34 dos 36 indicadores estabelecidos pelo Ministério da Saúde, obtendo o terceiro lugar entre os 645 municípios do Estado de São Paulo, segundo o ranking elaborado pelo Conselho de Secretários Municipais de Saúde do Estado de São Paulo (Cosems).

A posição de destaque, porém, não representa eficiência em todos os serviços da saúde em Bauru. A avaliação feita pelo Cosems foi setorizada. Instituídos em 1998, os itens avaliados foram estabelecidos pelo governo federal e fazem parte do Pacto de Indicadores de Saúde da Atenção Básica, que aponta metas a serem atingidas pelos municípios nas unidades básicas de saúde, os núcleos de saúde.

Entre elas estão, por exemplo, redução da mortalidade infantil, acompanhamento de gestantes ou acesso à primeira consulta odontológica. Dentre os itens avaliados não consta, por exemplo, o número de médicos em atuação na rede básica ou a incidência de leishmaniose no município.

De acordo com o levantamento da Cosems, Bauru ficou atrás das cidades de Guararema (100% das metas), com aproximadamente 24 mil habitantes, e Guaraçaí (94,44%), com cerca de 9,4 mil habitantes. Além de Bauru, Álvaro de Carvalho, Irapuã, Mirandópolis, Ribeirão Corrente, Riolândia e Santa Cruz da Conceição ficaram em terceiro lugar. Em seguida, aparecem municípios como São Paulo (80% das metas atingidas), Jaú (72,22%), Lençóis Paulista (66,67%) e Marília (69,44%).

Para a técnica responsável pela área de avaliação e planejamento da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), Jaíra Maria Rocco Kirchner, o cumprimento de 91% das metas demonstra o desempenho da qualidade da saúde da população. Como exemplo, a técnica lembra a redução da taxa de mortalidade infantil na cidade, que teria reduzido de 35 óbitos/mil nascidos (em crianças menores de 1 ano) para 9,45.

“Estamos bem. É um resultado para ser comemorado, mas não para nos acomodarmos. Eles (indicadores) servem de indicativos para onde devemos caminhar”, avalia a técnica.

De acordo com o levantamento, os profissionais da saúde terão que somar esforços no combate à tuberculose e no aumento da realização de exames Papa Nicolau (que previne o câncer de útero), os dois critérios não atingidos. “Precisamos direcionar a mulher para fazer o exame e diagnosticar a tuberculose, tratá-la e evitar a cadeia de transmissão”, exemplifica Kirchner.

A colocação bauruense no ranking ilustra a atuação profissional em atividades de prevenção e promoção da saúde da população nas unidades. Ficam de fora, portanto, a atuação em atendimentos como urgência, emergência em prontos-socorros e serviços de hemodiálise. “O básico conseguimos fazer”, resume a técnica da SMS.

Para ela, apesar dos problemas enfrentados pelo município na área da saúde, a prioridade conferida a alguns grupos populacionais no atendimento de unidade básica da saúde explicariam o resultado da avaliação do Cosems. No grupo estariam gestantes, crianças menores de 2 anos, hipertensos e diabéticos. “Tem que se traçar prioridades, se não a assistência fica desnorteada. Priorizamos crianças e gestantes para termos adultos saudáveis e prevenir a piora da saúde no futuro. Os hipertensos e diabéticos porque as doenças cardiovasculares são a primeira causa de óbitos no município (em 2004, foram 30% das causas)”, explica Jaíra Kirchner.

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Profissionais fazem ressalvas

Os indicadores levaram Bauru à terceira colocação no ranking de pontos estabelecidos pelo Ministério da Saúde, mas não representam o suficiente para subirem nos conceitos de representantes da classe médica da cidade.

“Os dados são confiáveis e refletem ações antigas. (Mas o terceiro lugar) não é para ser comemorado. São obrigações (do município conquistá-las)”, acredita o presidente da Associação Paulista de Medicina da regional de Bauru, o médico José Henrique de Oliveira Godoy, que ressalta a importância dos dois indicadores não conquistados para a saúde pública.

A falta de médicos e de organização seriam outros dos pontos relevantes que emperrariam a real melhorar na rede básica. “O atendimento é deficitário; unidades básicas têm que ser prioritárias ao pronto-socorro. Temos também uma política de remuneração injusta entre os profissionais da saúde”, aponta o conselheiro do Conselho Regional de Medicina da cidade, o médico Carlos Alberto Monte Gobbo.

As ressalvas são conhecidas pela técnica da Secretaria Municipal de Saúde, Jaíra Maria Rocco Kirchner. Para ela, os problemas apontados esbarram nos limites impostos pela Lei de Responsabilidade Fiscal, que não permitiria, por exemplo, a contratação de novos médicos ou a construção de mais unidades.

“Dentro do que nós temos, não iremos descuidar do grupo de risco (gestantes, crianças, diabéticos e hipertensos) nem abandonar o atendimento preventivo. E, dentro do possível, atender os demais (casos)”, assegura.