09 de julho de 2026
Regional

Vinho do ‘porto’ é fabricado em Lençóis

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 3 min

Quem pensa que para tomar vinho do porto precisa ir a Portugal ou desembolsar altas quantias em dinheiro para adquirir uma garrafa está enganado. Na cidade de Lençóis Paulista (a 43 quilômetros de Bauru), um descendente de lusitanos fabrica o vinho do porto com toque tupiniquim, uma versão abrasileirada de um dos vinhos mais famosos do mundo.

O produtor, Joaquim da Silva Cristovão, chamado carinhosamente por Joaquim Português, não dá a receita, mas faz questão de frisar que o verdadeiro porto só em Portugal. “O vinho do porto só em Portugal. São zonas demarcadas do norte do país. É fabricado por grandes cooperativas. Ninguém pode fabricar vinho do porto fora dessas zonas ainda que seja na Europa.

Após muita insistência, Joaquim português revela alguns detalhes do vinho. “Ele é um vinho abafado, feito com uvas bem maduras, bem doces e rosadas. Na receita vai uma quantidade de uvas e outra de conhaque. Ele é decantado e sua confecção demora 90 dias.”

Por ser adocicado, o vinho do porto, na versão brasileira, deve ser tomado em doses pequenas, avisa o produtor. “O consumo de vinho não deve ser excessivo, qualquer que seja o tipo. O porto engana porque é adocicado, então a pessoa toma e não sente o efeito de imediato, mas ele embebeda também.”

Joaquim português tem o costume de dizer que nasceu embaixo de um pé de uva. Embora isso seja "meia verdade", ele usa o vocabulário para ilustrar sua relação com as parreiras de uva e com o vinho. “Meus pais cultivavam uva em Portugal. Meu irmão mais velho e meus parentes que ainda moram lá têm terras e cada um deles produz seu vinho.”

Ele lembra que um de seus irmãos faz vinho para vender em Portugal. “Eu também faço vinho. Da safra do ano passado, não tenho mais nada. Nem faço propaganda, mesmo assim vendo tudo. Guardo uma pequena parte para servir os amigos.”

Produção

A propriedade rural de seu Joaquim fica em meio a um canavial em Lençóis Paulista. Lá, ele mantém um alqueire de uva. Sua produção, dependendo do ano, atinge nove mil quilos de uva com os quais ele fabrica cerca de 3.500 litros de vinho.

O produtor tem uva niagara rosada, branca e máxima preta. “Eu faço vinho branco e tinto, conforme a uva. Tenho a máxima preta para vinho tinto. Como essa uva é muito carregada, eu misturo com outras mais claras.”

Para ele, o segredo do bom vinho está na uva. “Se a uva for doce, o vinho será bom. Nossa terra aqui é muito fraca, é um areião, tem que ser bem tratada. Este ano é um ano de preparo. Vou estercar, colocar calcário e adubo. Uso uréia e cloreto de potássio para deixar a fruta doce”, ensina.

Mesmo com todos esses complementos, as frutas não ficam tão doces como em Portugal, admite o produtor. “Elas não ficam tão doces como as uvas portuguesas, também não temos o clima ideal. No Brasil, o clima ideal só no Rio Grande do Sul e Santa Catarina.”

Uma boa uva apanhada antes do ponto também compromete o vinho. “A uva tem que estar bem madura. As minhas são colhidas em janeiro, 100 gramas de uva verde estraga 100 quilos de uva boa”, ressalta.

Avaliando o vinho produzido por ele mesmo, seu Joaquim explica que a bebida não é muito densa. “Porque a uva que eu tenho, a máxima preta, ainda é pouca, por isso é que todos os anos uso mil quilos de uva max e um quilo da branca niagara ou rosada. O meu vinho tinto seco é ideal para acompanhar churrasco ou uma boa bacalhoada.”

Com as sobras de resíduo da uva, o produtor faz a pinga portuguesa ou a bagaceira. “É uma pinga igual a de cana, mas feita de resíduo da uva. É a sobra que fica no fundo dos tonéis.”