08 de julho de 2026
Saúde

União da ciência e espiritualidade

Da Redação
| Tempo de leitura: 7 min

Reunir corpo, mente, emoção e intuição anum todo harmônico e integrado. Esse é o objetivo da chamada abordagem bio-psico-espiritual, que hoje já encontra no Brasil iniciativas de tratamento na área de saúde. A informação é da psicanalista de orientação transpessoal e doutora em filosofia da Educação pela Unicamp, Mani Álvarez.

Na contra-corrente dos tratamentos convencionais, essa abordagem - que é o eixo da chamada psicologia “transpessoal” - defende que as pessoas são responsáveis tanto pela sua doença quanto por sua saúde.

Na avaliação da psicanalista, o conceito ocidental de separação entre corpo e mente está com os dias contados.

No Instituto Humanitis, em Campinas, a psicanalista está iniciando um trabalho com o método bio-psico-espiritual que propõe o tratamento da obesidade “sem sofrimento”, remédios ou dietas. Através de um treinamento especial, que inclui recursos psico-vivenciais como exercícios de respiração, relaxamento, alongamento, meditação, Mani afirma que é possível levar o obeso a conhecer o próprio corpo e ter controle sobre seus hábitos alimentares, diminuindo sua ansiedade e compulsão.

Em Bauru, a psicanalista ao lado da psicóloga e psicoterapeuta Leyde Christina Righetti Rino Resende, coordenará um curso de formação em transpessoal no próximo mês, a partir do dia 6, no Espaço Gaya. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida por email à reportagem.

JC - Em que consiste a abordagem bio-psico-espiritual?

Mani Álvarez - Estamos tão acostumados a nos ver divididos e fragmentados por “especialistas” que uma visão que integre o nosso ser nos parece até estranha! Principalmente no campo da saúde, existe “especialização” para cada parte do nosso corpo - como se nossos órgãos funcionassem separadamente, independentes uns dos outros. Esta visão não é particular da medicina. Ela impregna toda a nossa realidade. Nós nos vemos assim, separados uns dos outros, e o que é pior: separados dentro de nós mesmos: razão de um lado, sentimentos do outro. Espiritualidade, então, ah! isso é coisa de religião.

É nesse contexto que surge a abordagem bio-psico-espiritual, tentando re-unir nossas partes dispersas para voltarmos a nos conectar com nossa essência, nosso ser por inteiro. Pessoas muito racionais não desenvolvem sua percepção físico-sensorial e mal sentem o próprio corpo, outras muito emotivas se perdem na hora de usar a razão; a dimensão espiritual, como um anseio presente em todos nós, nesse contexto em que vivemos ficou reduzida a mera crença religiosa. Ora, nós somos muito mais que esses pedaços multifacetados.

JC- Qual o conceito da palavra transpessoal?

Mani Álvarez - Sendo a abordagem bio-psico-espiritual o eixo metodológico da psicologia transpessoal, precisamos definir bem essa palavra. Seu prefixo “trans” significa “além”. O que existiria “além” do pessoal?

Se entendermos que “pessoa” é apenas a máscara que vestimos para interagir no mundo, ou seja, o nosso ego, então “trans-pessoal significa o verdadeiro eu que emerge quando deixamos de lado nossa identificação com o falso eu. Sabemos que esse tão mal-falado ego é a sede de nossos apegos, padrões mentais, limitações, medos, condicionamentos, etc. Então, se conseguimos nos desidentificar dele, nos livramos ao mesmo tempo de toda essa bagagem incômoda. O que surge, então, é o verdadeiro eu, a nossa essência, um estado de consciência muito mais equilibrado, harmônico e saudável.

JC - Como a abordagem transpessoal se insere na área da psicologia?

Mani Álvarez - Embora a abordagem transpessoal seja um ramo da psicologia, uma vez que trabalha com as questões psíquicas e emocionais, ela não foi ainda reconhecida no Brasil oficialmente pelo CRP (Conselho Regional de Psicologia).

Esse é um fenômeno bem brasileiro. No exterior essa abordagem já faz parte do currículo acadêmico das universidades. Existem na Europa mais de 15 instituições só voltadas para o estudo da psicologia transpessoal. Entre nós, além do desconhecimento da abordagem transpessoal por parte da maioria dos profissionais da área, existe também preconceito e discriminação.

Mas esta situação começa a mudar. A psicologia transpessoal já está sendo ministrada em algumas universidades brasileiras como especialização. Como cursos de formação ela é ministrada por algumas instituições independentes, como é o caso do Instituto Humanitatis, de Campinas.

JC - Quais os fundamentos científicos da transpessoal?

Mani Álvarez - Por incrível que pareça, os fundamentos científicos da abordagem transpessoal vem da física quântica e da psico-neuro-biologia. Como não vou poder me alongar muito aqui, vou apenas me reportar a algumas descobertas que podem confirmar os fundamentos científicos da transpessoal. A começar pelas pesquisas de Max Plank, o fundador da teoria quântica, que questionou as bases da mecânica newtoniana ao formular o seu “princípio de probabilidade”, ou seja, num nível do infinitamente pequeno não existem coisas, objetos sólidos, matéria, mas apenas uma probabilidade de que algo venha a existir. O que define este vir-a-ser é o pensamento, a consciência do observador.

Também o pensamento “sistêmico” veio comprovar que não podemos isolar as partes do todo para estudo e análise, porque suas propriedades só são entendidas a partir de um contexto. Por exemplo, um membro de uma família só pode vir a ser bem compreendido se considerarmos sua situação dentro da sua árvore genealógica familiar, com todas as implicações que decorrem do lugar que ele ocupa na família. Dentro dessa visão sistêmica surgiu recentemente uma nova metodologia que está fazendo enorme sucesso, a do psicoterapeuta alemão, Bert Hellinger, chamada Constelações Sistêmicas Familiares. Quero concluir citando a importantíssima teoria dos “campos morfogenéticos”, do biólogo Rupert Sheldrake, que postula a existência de agentes não-físicos (idéias) na gênese das formas físicas.

Sua teoria explica muitos fenômenos antes tidos como “imaginários”, como uma “coceira numa perna que não existe mais”. Para Sheldrake, a “idéia” da perna pré-existiu à perna, e não pode ser cortada por um bisturi. Nesse caso, também as doenças “hereditárias” tem sua origem não necessariamente no DNA do portador, mas no campo morfogenético daquela família. Só então elas são realizadas no corpo.

Nos últimos anos têm sido muitas as descobertas que postulam uma nova visão de mundo, e isso constitui propriamente a tão falada mudança de paradigma mental.

JC - Na área da saúde, quais os benefícios que essa abordagem pode trazer?

Mani Álvarez - Os tratamentos de saúde convencionais supõe que o “paciente” é passivo, não sabe nada de sua própria doença nem pode fazer nada a respeito. A abordagem transpessoal questiona esses pressupostos que, afinal, anulam e destituem a subjetividade da pessoa. Ela vê a pessoa doente como responsável tanto pela sua doença quanto por sua cura. Veja bem, responsável — não culpada.

Assumir a responsabilidade seja pelo que for recoloca o papel do poder da consciência em foco. Para a transpessoal, cura é transformação. Portanto, ninguém pode me curar a não ser que eu queira. O maior benefício da abordagem transpessoal na saúde é permitir à pessoa vislumbrar que ela pode ser de outro modo, que assim como ela produziu um estado doentio, ela pode produzir um estado de equilíbrio e saúde. Tomar consciência e aceitar o próprio poder é um aprendizado.

JC - Como a transpessoal tem sido aplicada?

Mani Álvarez - A transpessoal vem sendo aplicada cada vez mais na área da saúde à medida em que mais profissionais se engajam nessa visão.

Os seus recursos psico-vivencias são relativamente simples e podem ser aplicados em consultório, em escolas, em organizações empresariais, em treinamentos, nas artes, etc. Basicamente, constam de técnicas que permitem ampliar o estado de consciência para além do campo de vigília (quando os cinco sentidos estão em alerta). Em estados de expansão da consciência - que ativam outros sinais interiores - as soluções surgem inesperadamente, as impressões têm maior alcance, o auto-controle das funções vitais são muito mais eficazes.

JC - É possível prevenir doenças a partir desse método?

Mani Álvarez - Sabe-se que a melhor prevenção contra qualquer tipo de doença, seja ela física, mental ou social, é uma vida pautada pelo equilíbrio interior, pela harmonia com a natureza, pela bom relacionamento com o próximo. O que nos adoece é o nosso estilo de vida competitivo, agressivo, individualista, egocêntrico. Como a transpessoal pode ajudar? Voltando a consciência para sua essência. Permitindo às pessoas vislumbrar o infinito potencial que se esconde dentro delas. Nós temos o nosso futuro em nossas mãos. Somos nós que criamos nossa realidade. Auto-conhecimento é o primeiro passo. Auto-transformação, o segundo.