Pela primeira vez, um presidente do PT assume reconhecendo a necessidade de mudar. Não por coincidência, ele não faz parte do núcleo paulista que sempre dirigiu o partido. Tarso Genro vem do Rio Grande do Sul e de outra tendência. Mas ainda não sabemos se ele conduzirá as mudanças que os militantes do PT defendem há anos, pois ele e os demais dirigentes são do bloco majoritário que vem controlando partido e governo desde a eleição do presidente Lula.
Há medidas concretas e urgentes a serem iniciadas em breve. O contrário - maquiagens e ações de marketing para atender ao clamor público - pode provocar o desaparecimento do partido. O resultado será um novo PT ou PT nenhum.
O novo PT, amadurecido com a prática de governar, precisa admitir que a economia não é espaço para demagogia nem aventuras; que política econômica não é de esquerda ou direita, mas sim competente ou incompetente, responsável ou irresponsável. A nova direção precisa apresentar propostas e ajustes à atual política que possam ser adotados no futuro sem pôr em risco as conquistas dos últimos anos.
Definir bandeiras concretas. Os militantes precisam de bandeiras unificadoras: fim do analfabetismo; política tributária distributiva; reforma agrária; proteção ambiental; redução da desigualdade de renda; aumento do valor da Bolsa Família, vinculado a objetivos educacionais; federalização da educação, com pisos de qualificação e salário de professores, conteúdo de ensino e equipamento das escolas; fim da reeleição para todos os cargos executivos; financiamento público de campanha; fidelidade partidária; fim do sigilo bancário e fiscal de dirigentes e filiados com mandato ou função pública.
Abolir as tendências. Após a definição de objetivos comuns a todos os militantes, deve ser abolida a formalização de tendências internas organizadas. Nada deve impedir a aglutinação de afinidades dentro do partido, mas sem uma estrutura viciada e divisionista.
Nacionalizar o poder interno. A tarefa mais difícil e necessária da nova direção do PT será retirar de São Paulo e das tendências o poder que os dominou, viciou, isolou. O PT precisa democratizar a representação de todos os estados na sua estrutura interna. É preciso transferir a sede nacional do PT para a capital do País, e garantir representatividade regional na direção nacional.
Socializar o poder interno. Ao lado da distribuição regional, o PT precisa atrair para o seu núcleo os movimentos sociais, garantindo-lhes assento em todas as direções partidárias. Assim o PT será o partido do povo brasileiro e não só dos trabalhadores. É preciso também renovar constantemente os dirigentes, proibindo a reeleição em cargos executivos e permitindo apenas uma reeleição nos diretórios.
Promover transparência. O PT precisa adotar uma total transparência administrativa e financeira, divulgando suas contas pela Internet, realizando auditorias externas regulares.
Com esses e outros gestos de uma direção democrática, transparente e popular, o PT pode renascer como um de vanguarda na reorientação de que o Brasil precisa. Caso contrário, a mudança na sua direção terá sido um engodo. No lugar do PT ocupando o governo, teremos o governo ocupando o PT. E tudo o mais seguirá igual.
O autor, Cristovam Buarque, é professor da Universidade de Brasília e senador pelo PT/DF - e-mail: cristovam@senador.gov.br