Quando o assunto são os arcos do Calçadão da Batista, o vice-presidente da Associação das Empresas do Calçadão (AEC), Francisco Alberto de Bernardis, não titubeia: “Uns amam, outros odeiam”. Úteis para uns e feios para outros, os arcos estariam fora dos padrões e, em situações de emergência, poderiam atrapalhar o acesso do Corpo de Bombeiros. Em meio a relações de amor e ódio e a questões de segurança, os arcos tornaram-se tema de dissertação de mestrado. Após dois anos de pesquisa, a arquiteta e professora do curso de arquitetura da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, Priscilla Ananian, propôs um novo modelo para os arcos do Centro da cidade.
No projeto apresentado pela professora em junho deste ano na Unesp, a cor azul e as formas arredondadas continuariam evidentes. As principais mudanças ficariam por conta da altura e do espaço ocupado. As coberturas teriam altura máxima de 9 metros, cinco metros a mais da atual. A quantidade de coberturas iria variar conforme as características das quadras. Se tiver prédios altos, como nas quadras 3 e 4, haveria apenas uma.
Além disso, as coberturas seriam apoiadas em pilares únicos, o que facilitaria a circulação das pessoas e o acesso às viaturas da polícia e dos bombeiros.
Segundo a professora, sua intenção é sugerir alterações estéticas, sem mudar a identidade dos arcos, e que melhor atendam às necessidades do local. “Se pensarmos só em segurança, a proposta seria tirá-los. Mas a retirada incomoda porque as pessoas têm identificação com ele. Sem os arcos, para muitas pessoas o Calçadão ficaria comum”, explica Priscilla Ananian.
Durante os dois anos de pesquisa, ela entrevistou 259 pessoas, entre comerciantes, comerciários e usuários. Segundo ela, 53% dos entrevistados consideram os arcos como símbolo do Calçadão, mas 61% acham que ele está feio e degradado.
Problemas
Em junho do ano passado, a morte de uma mulher ao ser atingida pela queda do letreiro de uma loja do Calçadão chamou a atenção para as dificuldades que os arcos poderiam causar em casos de emergência. Na época, representantes do Corpo de Bombeiros disseram que a cobertura atrapalharia operações de incêndio em que escadas fossem necessárias. “(De acordo com as normas estaduais), a altura dos arcos deveria ser de 4,5 metros. Hoje é de 4 metros”, lembra a professora.
Priscilla constatou ainda dois outros problemas. Apesar da sombra, o calor embaixo das coberturas é excessivo e não oferece conforto térmico às pessoas. Além disso, a altura encobre as fachadas das lojas e dificulta a visualização dos letreiros.
Para compensar estes problemas, a professora sugere coberturas mais altas para facilitar possíveis trabalhos dos bombeiros e para melhorar a comunicação visual no Calçadão. Para resolver o problema do calor, sem tirar a sombra, haveria um desnível entre as coberturas que possibilitariam a passagem do ar.
“É uma idéia. Talvez fossem necessárias parcerias entre o poder público e a iniciativa privada. Mas esta mudança daria unidade à revitalização do Centro”, acredita a arquiteta. Para o vice-presidente da AEC, Francisco Bernardis, mudanças no Calçadão são bem-vindas, mas sempre esbarram na questão financeira. “O problema não é mudar os arcos, o problema é a conta para pagar”, resume. Ressalva igual é feita pela a arquiteta da Secretaria Municipal do Planejamento (Seplan), Maria Helena Rigitano.
Apesar das boas conseqüências que a reforma traria ao Centro da cidade, inexistem estudos sobre o tema na administração.
“O projeto é bom: aproveita o que o Calçadão já tem e sugere intervenções para corrigir o que tem de errado. Mas não temos recursos para isso”, lamenta.