“Nas pescarias que tenho feito ao longo do tempo, alguns dos parceiros têm alterado, mas dois deles são fidelíssimos: o Vilson e o Osmani.
Assim, em 1987 - lembro o ano porque havia acabado de adquirir uma Belina 86 zerada -, combinamos ir a Coxim, no Hotel de Férias Pantanal, que tinha convênio com uma associação da qual fazíamos parte, com diária a preço de bananas.
As sombras de comida do hotel eram utilizadas como ceva, a pesca de piavuçu era farta e ali ficamos por três dias nessa diversão, pescando de barranco.
Detalhe: o Osmani fisgou um belo exemplar que escapou do anzol quando já estava quase na mão e ficou se debatendo em uma galhada; meu amigo não teve dúvidas, saltou na água a tempo de embolar-se com o peixe e resgatá-lo.
O segundo detalhe foi que aí precisamos resgatar o Osmani, que, agarrando ao peixe, não conseguia sair do rio.
No terceiro dia, nós decidimos que era desaforo voltar sem que fizéssemos uma pescaria embarcada. Um piloteiro que estava nos rodeando desde nossa chegada contava maravilhas de suas pescarias rio abaixo: há poucos dias um turista havia capturado um pintado de 18 quilos. Outro grupo, sob sua orientação, tinha voltado com 12 pacus de medida, dizia ele. Resolvemos contratá-lo.
Dia seguinte, bem cedo, lá estava ele pronto e nós também. Pescamos o dia inteiro e o único produto dessa pesca foi um fidalgo de uns 20 centímetros fisgado por mim. À tarde fomos acertar as contas com nosso guia e entre a diária dele e do motor, iscas e combustível, pagamos mais do que as três diárias do hotel. Quem mandou não combinar antes?
Mas, e a comida caseira? Bem, vamos falar dela.
Nossa diária não incluia jantar e, então, à noite íamos numa churrascaria em Coxim. No caminho, passávamos por uma casinha simples de madeira na qual uma placa torta e mal escrita anunciava a tal comida caseira.
Como era o quarto dia jantando rodízio, por sugestão minha, paramos para ver qual era o cardápio. Descemos o Osmani e eu. O Vilson, macaco velho, esperou no carro. Entramos na casa que não tinha o menor jeito de restaurante e fomos recebidos com um ‘oi bem, tudo jóia?’ por umas mulheres de aspectos suspeitos, algumas trajando apenas camisola.
Deu logo para ver que o cardápio eram elas próprias, mas já que estávamos ali, muito sem graça, perguntamos que tipo de refeição serviam e a resposta foi: ‘Se vocês quiserem a gente prepara alguma coisa enquanto conversa e toma uma cervejinha’. Mais sem graça ainda, nós agradecemos e fomos saindo sob protestos delas: “Ainda é cedo bem, vocês acabaram de chegar, vamos fazer um programinha’.
Até hoje pago mico por essa história. Minha mulher, principalmente, não se esquece e faz questão de contá-la sempre que o assunto é pescaria.
O autor, Jovercy Bergamaschi, é aposentado, gosta de pescar e vez por outra contar alguns fatos pitorescos que costumam acontecer nessas ocasiões.