08 de julho de 2026
Articulistas

A face do Mao


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Mao Tsé-tung, nascido na região das monções (Hunan) em 1893, foi sempre uma pessoa obcecada em concentrar poder em suas mãos. Aos 24 anos, Mao escreveu: “Pessoas como eu só têm obrigação com elas próprias... Adoramos tempos de guerra... Amamos velejar em mar de turbulências... O poder é como um furacão que se ergue de uma garganta profunda, como um maníaco sexual no cio... O país precisa ser destruído e então reformado... Pessoas como eu almejam esta destruição”.

Entre os mitos que se construíram em torno do nome de Mao-Tsé-tung, consta o de que ele era um líder nacionalista irrepreensível. Na verdade, Mao torceu para que, no início da década de 1930, os japoneses invadissem o Japão, pois contava com a ajuda das forças estrangeiras para combater o seu “inimigo interno” - os nacionalistas de Chiang Kai-shek. Mao Tsé-tung esboçou planos de divisão do território chinês com os invasores japoneses.

Na Longa Marcha de 1934-1935, há outro mito da historiografia oficial que precisa ser desmanchado: o de que Mao era um bom estrategista militar. A verdade é que os soviéticos haviam seqüestrado o filho de Chiang Kai-shek, obrigando-o a permitir que as tropas de Mao se deslocassem pelo território chinês sem serem incomodadas. Mao nem sequer marchou: era carregado pelos seus homens, numa cadeirinha (na qual passava a maior parte do tempo lendo) como se fosse um senhor de escravos.

Assim que chegou ao poder, Mao usou soldados chineses como bucha de canhão, na Guerra da Coréia (1950-1953), apostando que os norte-americanos não conseguiriam competir com ele em sacrifício de vidas. Mao queria continuar a luta mesmo depois dos EUA ameaçarem usar armas nucleares. Stálin, que não pode ser acusado de pacifista, foi quem obrigou Mao Tsé-tung a parar a luta.

Entre 1958 e 1961, Mao lança O Grande Salto à Frente. Na verdade, a idéia era exportar alimentos para comprar armas com o dinheiro arrecadado. Nesta aventura, Mao condenou à morte por fome um contingente de aproximadamente 38 milhões de pessoas. Será que tantas mortes lhe causaram remorsos? Pois bem, o que Mao fez foi ordenar que os cadáveres fossem enterrados sob as lavouras, para fertilizar a terra.

Em 1966, em parte como conseqüência do desastre do Grande Salto à Frente, Mao enfrentou alguns questionamentos ao seu poder pessoal e lançou a Revolução Cultural. Mao incentivou estudantes, agentes policiais e arruaceiros a exercer violência contra os professores e intelectuais, que estavam fazendo oposição política ao governo. Morreram 3 milhões de pessoas.

Na velhice, Mao Tsé-tung fazia-se acompanhar por meninas recém-púberes. Além disso, tinha mais de 50 vilas, com piscinas aquecidas, para seu uso pessoal e uma conta bancária com alguns milhões de Yuans. Morreu em 9 de setembro de 1976. Deixou alguns fãs. Um deles pronunciou sua admiração intelectual em uma entrevista dada à revista Veja, no ano de 2001. Trata-se do Comissário do Povo, José Dirceu. Como diriam os sábios latinos: asnos roçam-se em asnos.

O autor, Ney Vilela, é professor de história e mestrando em comunicação