Jaú - O corpo clínico da Santa Casa de Jaú teve de pedir ajuda ao Ministério Público da cidade para realizar transfusão de sangue em uma paciente. A medida foi necessária porque o marido, Emerson de Freitas, é testemunha de Jeová e não estava autorizando o hospital a fazer a transfusão. Segundo ele, a religião não permite esse tipo de procedimento.
De acordo com o médico Osvaldo Franceschi Júnior, diretor clínico da Santa Casa, esta foi a primeira vez que o hospital teve de apelar à Justiça para fazer a transfusão. Ele comentou que esse tipo de situação é comum em qualquer hospital do País. Em Jaú, até então, a questão sempre tinha sido resolvida mediante conversa com a família do paciente.
“Sempre temos problemas (com testemunhas de Jeová), mas nunca precisamos chegar até esse extremo (registrar boletim de ocorrência e consultar Ministério Público).”
Diante da relutância do marido em autorizar a transfusão de sangue, o hospital registrou boletim de ocorrência para preservação de direitos e ainda consultou o Ministério Público e os pais da paciente antes de realizar o procedimento.
Caso a transfusão não fosse feita, a dona de casa Graziela Martins Freitas, 26 anos, certamente morreria. Segundo explicou o diretor clínico, seria o mesmo que desligar o aparelho de respiração artificial.
A falta de sangue no organismo faz com que não haja uma oxigenação adequada dos órgãos. Os pacientes ficam debilitados e isso implica numa piora da condição clínica, o que pode levar à morte.
A paciente não foi consultada antes da transfusão porque ela estava inconsciente. Ou seja, não tinha condições, naquele momento, de decidir o que deveria ser feito.
“Nós respeitamos (a doutrina dos testemunhas de Jeová) até um limite. Se o paciente está correndo risco de vida, acabou”, disse Franceschi. Ele acrescentou ainda que todo médico tem a obrigação de zelar pela saúde e bem-estar do doente. “Isso é primordial. Independente de credo, cor ou raça”, alegou.
Ontem, o quadro clínico da paciente ainda era muito delicado, mas estava apresentando uma melhora. Segundo o médico, Graziela continuava internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), sedada e respirando com ajuda de aparelhos.
Ela chegou ao hospital na quinta-feira da semana passada, com inflamação aguda no abdome. Durante uma intervenção cirúrgica, foi constatado que a paciente possuía infecção no rim. O quadro evoluiu para uma infecção generalizada, o que provocou anemia e desnutrição, segundo Franceschi. Ele explicou que a infecção generalizada ocorre quando as bactérias que estavam em um órgão passam para a circulação sangüínea.
De acordo com o médico, a paciente tem agora grandes chances de se recuperar da infecção e voltar à vida normal. Franceschi não soube dizer quanto tempo vai levar para Graziela estar totalmente recuperada. Segundo ele, o tempo varia de acordo com o paciente. Por isso, não há como estipular um prazo médio.
A base religiosa que as testemunhas de Jeová alegam para não permitir ser transfundidos é obtida em alguns textos contidos na Bíblia, que proíbem a ingestão de sangue.