07 de julho de 2026
Ser

Melhor idade virtual

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 4 min

“Estamos entrando na era da tecnologia.” Este foi o primeiro e-mail redigido de forma coletiva por um grupo de aproximadamente 60 idosos cadastrados na Universidade Aberta à Terceira Idade (Uati) da Universidade do Sagrado Coração (USC).

Embora a Internet seja assunto “manjado” para a maioria dos jovens e adultos, o ambiente eletrônico ainda está sendo “descoberto” por grande parte das pessoas acima dos 50 anos. Justamente por ser novidade ou estar associado especificamente à modernidade e à tecnologia, o uso do computador e da Internet pode ter encontrado, no início, certas resistências por pessoas da terceira idade.

Barreiras que, com o passar dos anos, foram perdendo sua força, explica um dos professores de informática da Uati, Elvio Gilberto da Silva. “Os integrantes do curso têm sede em aprender, eles querem conhecer, desvendar coisas novas no mundo da informática”, diz.

Na Uati, cerca de 60 idosos aprendem noções básicas de Windows e Internet (primeiro nível) em aulas realizadas nas manhãs das quartas-feiras. “Eles têm três níveis de informática, no segundo é Powerpoint, e na terceira etapa aprendem um pouco mais de Internet avançada, softwares de conversação e Excel”, detalha Elvio.

A exemplo da Uati, cada vez mais aumenta o número de idosos freqüentando páginas virtuais, utilizando e-mails ou navegando pela Internet. Em Bauru, cursos básicos sobre informática e Internet para pessoas acima de 50 anos são oferecidos pelo grupo de idosos do Serviço Social do Comércio (Sesc).

Acompanhando o progresso

Muitos são os motivos que levam os idosos a procurar um curso de informática, de acordo com um projeto desenvolvido ano passado por Gislaine Aude Fantini, coordenadora da Uati. Segundo o estudo, a possibilidade de se atualizar e acompanhar o progresso mundial é um dos fatores predominantes, seguido pela facilidade em trabalhar com tarefas do cotidiano e melhor convivência com filhos e netos por meio da Internet.

Erti de Campos Freitas, uma das alunas do curso de informática da Uati, revela sua emoção ao lidar com a Internet: “Com menos de três meses de informática, estou muito feliz por entrar na Internet. Recebo e mando e-mail e posso fazer pesquisas. Já não me sinto mais uma analfabeta em Internet pois consigo me comunicar com outras pessoas e descobrir muitas coisas interessantes”, diz.

Suas colegas de sala Elisabeth Garcia e Nadir Alexandre têm a mesma emoção ao lidar com a Internet e o mundo eletrônico. “Passar a ser cidadã do mundo é a melhor sensação possível. O medo de não conseguir entrar na Internet deu lugar à certeza de um amplo horizonte, com novas amizades, informações, experiências, comunicação atualizada, entretenimento e uma aprendizagem infinita”, revela Elisabeth.

“Estou muito feliz em estar fazendo informática agora, na terceira idade. Entrar na Internet é maravilhoso. É uma oportunidade para conhecer novas pessoas, conhecer lugares para fazer viagens, descobrir novidade em moda, museus e assuntos culinários”, detalha Nadir.

Viagem virtual

A sensação de navegar na Internet, “viajando” por lugares desconhecidos, também pontua a experiência de Brasilina Meira Lima, aluna do curso de informática do Sesc. “É uma forma de lazer e diversão. O gostoso da Internet, para nós que viajamos muito com o clube, por exemplo, é pesquisar sobre as cidades na Internet. Nas últimas aulas pesquisamos a Bahia, Parati e Bertioga”, conta.

Adriana Tosi Martinez, também aluna de informática do Sesc, traduz em palavras a emoção de ouvir uma rádio de seu país natal, a Itália. “Procuro fuçar em coisas da Internet. Entrei em uma rádio da minha cidade, Verona, e gostei muito. Fico procurando paisagens de cidades, eu adoro”, conta.

Comunicação

A convivência com os filhos e netos - estes tidos como a geração da Internet - é outro fator de destaque na questão idosos e o uso do computador, explica a coordenadora do trabalho social com idosos do Sesc, Lúcia Maria Lopes Garcia. De acordo com ela, o clube possui atualmente duas turmas de 16 alunos, além de outras duas classes de informática que se formaram.

A atividade oferece conceitos básicos da rede e conta com auxílio de web-animadoras do Sesc. “Conhecendo a Internet, eles têm mais assunto para conversar com os filhos e netos, podem discutir temas atuais. Além disso, o sistema pode ser uma forma de comunicação com parentes que viajaram para lugares distantes”, diz.

Os alunos de informática do Sesc e da Uati “assinam em baixo”. “Mando e-mail para o neto, para a neta... É muito gostoso”, conta Adriana. Seu marido, Francisco Martinez, concorda. “O contato com a máquina é muito interessante”, acrescenta.

“Mando e-mail para os familiares, entro em páginas de pesquisa, é muito gostoso”, relata Neusa de Abreu Gavaldão. “Eu também uso a Internet, mais de sábado e domingo”, completa seu marido, Valdemar Gavaldão.

Novos conhecimentos, pesquisas, facilidades no cotidiano, melhor convivência familiar. Inúmeras são as vantagens apontadas pelos idosos que lidam com o computador e a Internet.

Orandi de Almeida, também integrante da Uati, resume a experiência de muitos colegas de sala: “A informática me proporcionou vários conhecimentos. Graças a ela, por exemplo, hoje faço parte da imensa família dos internautas”, diz.