O som inspirado na black music dos anos 60 e 70 embala e os casais que, orientados pelos professores, começam a curtir o samba-rock. Na dança, os dois passos sincronizados para cada lado, as mãos posicionadas e os giros coordenados pelo salão encantam pessoas de diferentes idades, que procuram as danceterias para aprender ou se divertir com o ritmo.
Em Bauru, uma casa noturna localizada na avenida Duque de Caxias oferece aulas de samba-rock às quartas-feiras e está ganhando cada vez mais adeptos. “Há muitas pessoas interessadas no samba-rock. A batida e o molejo são bem parecidos com o forró”, destaca o proprietário Leon Souza Mastrangeli, que também é professor de forró.
“O samba-rock é contagiante. A pessoa começa aprendendo e depois quer mais e mais. Não tem fim”, diz o operador de máquinas Francisco Bernardo de Almeida Júnior, que há sete anos dança samba-rock. Recentemente, juntamente com a namorada Tatiana Cristina da Silva, começou a ensinar o ritmo na danceteria de Leon.
“Além de ser um estilo musical, o samba-rock se tornou um estilo de vida”, define Tatiana, que além de professora trabalha como auxiliar de enfermagem (confira detalhes abaixo).
Alunos aplicados
Orgulhosos, Bernardo e Tatiana contam que possuem oito alunos em sua turma, além de outros dez já “formados” por eles. A exemplo de outros fãs do samba-rock, o casal possui como referências o músico paulistano Marco Mattoli, um dos integrantes do Clube do Balanço, Trio Mocotó, Jorge Ben Jor, Elis Regina e Bebeto.
“Em São Paulo o ponto forte de samba-rock é a (danceteria) Blem-Blem”, diz Bernardo. Para ele, acompanhar as tendências da Capital é função essencial para quem quer se aprimorar na dança. “Aprendemos ‘olhando’ para os grupos paulistanos”, revela ele.
Foi também “olhando” que Bernardo conheceu os primeiros passos do samba-rock. Ele conta que o ritmo ficou conhecido em Bauru nas décadas de 60 e 70. “Dois amigos meus, a Mônica e o Tico, que são irmãos, aprenderam a dançar nessa época. Mas poucas pessoas sabiam e o ritmo ficou um pouco apagado”, diz.
Nos anos 90, Bernardo se “apaixonou” pelo samba-rock. “A tia de um amigo me ensinou o primeiro samba-rock. Aprendi e começei a ir para São Paulo, onde evoluí e começei a dançar um novo samba-rock, moderno e com mais passos”, detalha ele. A “paixão” de Tatiana pelo ritmo veio como consequência do namoro de três anos com Bernardo.
Desde então, o casal se dedica a ensinar samba-rock nas horas livres. Segundo eles, não há segredo, uma vez que os passos são simples e marcados. “Os passos nunca mudam e é o parceiro quem conduz”, explica Bernardo. Se a base da coreografia é a mesma, o comportamento dos amantes de samba-rock mudaram desde os anos 70 - quando os bailes começaram a ganhar fama.
Bailes
Naquela época, o estilo black power, calças boca-de-sino ou roupas com brilho eram “uniformes” nos bailes. Hoje o estilo é livre, garante Bernardo. “Em Tietê há um encontro de samba-rock todos os anos. Quando se olha uma pessoa, não se imagina que ela dança samba-rock porque não dá mais para se distinguir pela roupa. É um estilo bem livre, alguns são extravagantes, outros são bem discretos”, diz.
“O samba-rock tem um estilo próprio. Nós tivemos em um baile em Araraquara, chamado ‘Baile do Carmo’, e seria bom se tivéssemos condições de fazer um baile parecido, com pessoas bem vestidas e de várias idades, desde adolescentes até idosos. Nesses bailes não se vê briga, o ambiente é bem familiar”, acrescenta Tatiana.
Espaços
Embora atraia muitos bauruenses, o atual cenário do samba-rock não é considerado ideal para os amantes do ritmo. Na opinião da maioria deles, faltam espaços para a realizações de shows e bailes, atividades que já fizeram parte do cotidiano cultural da cidade em anos anteriores.
Entre 2001 e 2002, por exemplo, um bar localizado na rua Antônio Alves era tido como um dos “points” do samba-rock. As noites quintas-feiras, por exemplo, eram dedicadas exclusivamente ao ritmo, explica o músico Luiz Manaia, o Ralinho, que era proprietário do local.
“O movimento do samba-rock era muito forte nessa época. Começamos a misturar a comunidade negra e os universitários”, lembra. Nessa época, a banda bauruense Segura a Nêga e o grupo de dança Desamarre o Nó realizavam constantes apresentações. No início deste ano, o Segura a Nêga começou a se desfazer, explica Ralinho.
Bernardo explica que embora Bauru tenha sido palco de um festival de samba-rock promovido pelo Serviço Social do Comércio (Sesc) em maio, os espaços para a realização de bailes e shows do gênero na cidade são extremamente restritos. “Faltam espaços. Há uns três anos, eu ajudava a divulgar o ritmo em uma danceteria, que fechou”, diz.
O técnico operacional e professor de samba-rock Flausney Roberto de Oliveira concorda com Bernardo. “Em Bauru, hoje, faltam muitos espaços. São realizadas as aulas e o meio universitário é sempre atuante, mas isso ainda é restrito porque são poucas casas que ajudam a divulgar o samba-rock”, diz. “Há três anos, Bauru era uma das principais cidades de samba-rock. Hoje estamos perdendo essa frente talvez por falta de investimento”, reclama.
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Saiba mais sobre o samba-rock
• Para muitas pessoas, o samba-rock é um ritmo musical que mistura samba e sons produzidos por guitarras, baterias e baixos. Para outros, é um estilo de dança que traz passos marcados e apresentada em bailes. Para a maioria, as duas manifestações são válidas
• O estilo musical do samba-rock mistura samba com sons produzidos por guitarra, baixo, bateria; como metal
• Inspirado na black music dos anos 60 e 70, o ritmo traz como referências são Tim Maia, Jorge Ben e Bebeto, entre outros artistas brasileiros
• A dança samba-rock pode ser considerada uma evolução do twist
• A coreografia exige dois passos para cada lado; os casais ficam invertidos
• A intensidade ou velocidade dos passos depende da música; quem leva a dança é o parceiro
• A marcação dos pés nunca muda, mas há a possibilidade de giros coordenados pelas mãos
• Nos anos 90, o samba-rock deixou de exigir um figurino inspirado em roupas brilhantes e perucas black power; hoje o estilo adotado nos bailes é livre