No lugar dos passageiros, lamúrias e reclamações tomam conta dos táxis da cidade. Nem mesmo a prorrogação do prazo para pedir a isenção de impostos para compra de carros novos, anunciada anteontem pelo governo federal, serviu para alegrar os motoristas. Problemas já conhecidos como a pouca demanda e a concorrência deixam muitos motoristas sem perspectivas de dias melhores e, em alguns casos, sem estímulos para trocar o veículo.
O projeto de lei assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na última segunda-feira prorrogou de 2006 para 31 de dezembro de 2009 o prazo para motoristas de táxi e deficientes físicos pedirem a isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) na compra de carros novos. As alíquotas do IPI variam de 7% a 25%, de acordo com o modelo do veículo (combustível ou cilindrada).
O novo projeto prevê também a redução de três para dois anos o tempo mínimo para o beneficiário ficar com o carro antes de vendê-lo. O projeto será encaminhado para aprovação no Congresso Nacional.
“Comprar (o carro) é fácil, o duro é pagar. Entrar em uma dívida de anos, está lascado”, comenta o taxista Luiz Carlos Del Hoyo. Há apenas quatro anos no ramo, ele está descontente com a situação do serviço na cidade e não pensa em trocar tão cedo o carro com 19 anos de uso. O número reduzido de clientes e a baixa renda desestimulam a assumir um financiamento de carro zero, mesmo com a isenção. “Acho que vou até sair (do táxi) e voltar para as vendas, meu emprego antigo”, afirma.
O pessimismo de Hoyo e o desinteresse em aderir ao pedido de isenção não são surpresas para o presidente do Sindicato dos Taxistas, Caminhoneiros e Transportadores Autônomos de Bauru e Região, Genildo Parra Rodrigues. Taxista há 10 anos e proprietário de um veículo de ano 1996, Rodrigues lembra que poucos têm condição financeira de trocar o carro sem precisar recorrer a financiamentos.
“Quem tem dinheiro para comprar no ato, ótimo. Mas quem precisa estender o prazo, vai criar uma dívida. Pelas condições (queda da demanda), é difícil alguém investir no incerto”, considera. Para ele, além da isenção, a redução dos juros de financiamentos de veículos novos para a categoria também facilitaria a renovação da frota. “O incentivo é excelente, mas para os motoristas de Bauru, pelo menos, seria bom criar uma linha de crédito para não pagarem tantos juros. Os juros altos inviabilizam a isenção”, argumenta.
Na cerimônia de assinatura do projeto de lei, representantes dos taxistas do Distrito Federal pediram ao presidente a criação de financiamentos especiais ou juros menores. Em resposta, o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, afirmou que a proposta está em discussão.
Por hora, mesmo ciente das vantagens de adquirir um carro novo, Luiz Carlos Hoyo vai continuar com o Monza ano 86. “Carro novo trabalha mais, às vezes o cliente escolhe um mais novo. Mas tem que acostumar. Gastei bastante nele e vou ter que ficar por mais tempo”, lamenta.
Na visão do diretor de transportes da Empresa de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), Waldomiro Fantini Júnior, a mudança de hábitos ajuda a justificar as reclamações da categoria. Segundo ele, a popularização dos automóveis após a década de 70 e o desenvolvimento dos transportes coletivos desestimularam o uso do táxi nas cidades. Além disso, a atual queda do poder aquisitivo da população também teria contribuído para fazer do táxi um serviço “supérfluo”. “Hoje muitos têm condução própria e, conseqüentemente, os táxis ficaram demais.”
Apesar dos problemas, Genildo Rodrigues garante que as isenções trazem boas conseqüências, principalmente, para o consumidor.
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Para poucos
A média de idade dos 199 táxis da cidade varia entre 6 e 7 anos. Idade considerada razoável diante da pouca demanda existente, segundo o diretor de transportes da Emdurb, Waldomiro Fantini Júnior. Para ele, as isenções ajudam a melhorar a frota, mas não atingem os proprietários de veículos com mais de dez anos de uso, devido às suas dificuldades financeiras para comprar um carro zero.
“O benefício é para poucos. Infelizmente, esta é a realidade” conclui o presidente do sindicato da categoria, Genildo Parra Rodrigues. Um deles talvez seja o taxista Lázaro Francisco Sormas. Há dois dias, ele trocou o Astra ano 2002 por um 2006 usando o plano de isenção e abateu R$ 22 mil do valor de mercado.
“Só troco no plano do governo, de três em três anos. Se não for assim, não se troca porque o serviço está muito fraco. Hoje em dia, se não tiver carro bom não tem cliente”, ressalta.