A vida mambembe das crianças que seguem o circo Beto Carrero World está longe de ser só gargalhada. Entre uma cidade e outra, elas deixam amigos pelo caminho. Há um ano, por exemplo, Melani Santos, 7 anos, se separou da companheira Gabriela. Atualmente, a amizade das duas se resume numa seqüência de fotos.
“A gente se conhece desde a barriga da minha mãe. No meu aniversário, eu sempre peço para ir para lá ou para ela vir. Mas não dá certo. Os pais dela mudaram de circo. Às vezes, eu telefono”, conta. Já Mayra Perdomo, 12 anos, também se utiliza da Internet para não perder contato com quatro amigos que fez em Franco da Rocha.
“Converso com dois irmãos. Com os outros não”, diz. O tom de lamento tem explicação. Ela admite ser difícil consolidar uma amizade em tão pouco tempo. Por ano, o grupo passa, em média, por 25 cidades, onde se apresenta.
“Eu peço para a professora não contar nada (de que ela é do circo). Quando descobrem (os colegas), perguntam sempre a mesma coisa, em toda praça. Também querem que eu os coloque no circo de graça. Eles não querem saber de mim. Com os quatro foi diferente”, conta. A saudade de pessoas especiais também transforma meninos quase destemidos em frágeis pierrôs.
Kelvin Barbosa, 10 anos, por exemplo, admite ter ficado triste ao deixar cidades onde conseguiu fazer amigos. No entanto, como convive com muitos outros que compartilham com ele os percalços da estrada, em pouco tempo já está recuperado. A vida nômade se encarrega de uni-los e transformá-los em companheiros inseparáveis.
Tanto que, atualmente, o melhor amigo de todas as crianças consultadas pela reportagem divide com elas os ônus e os bônus da vida mambembe. O dia a dia as transformou - assim como seus pais - numa mesma família, onde até as brigas são previsíveis.
Nicolas da Conceição, 8 anos, sabe muito bem disso. Ele está sujeito a ser advertido por qualquer adulto do circo, caso responda de modo mal educado. Segundo o garoto, a autorização teria partido da própria mãe. No total, o grupo carrega cerca de 25 crianças com idade entre zero e 16 anos.
____________________
Outros sonhos
Apesar da maioria das crianças do circo consultadas pelo JC ter a intenção de trabalhar, quando adultos, no picadeiro, alguns deles esperam um dia fixar endereço. É o caso de Mayra Perdomo, 12 anos. Ela espera um dia apresentar números no Exterior para então comprar uma casa para a família em Hortolândia, onde a madrinha mora.
Até lá, segue treinando ao lado da melhor amiga, Juliana dos Santos, 11 anos, cuja irmã quer entrar para a marinha. “Sei que terei de ralar muito”, afirma Diana dos Santos, 12 anos. Apesar dela não se enquadrar na vida nômade, não descarta a possibilidade de um dia, lá na frente, sentir saudade de hábitos da vida circense, como o de tirar os sapatos para entrar nas casas, sediadas em trailer e ônibus.