08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

DARWIN... QUE PENA!


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Em meados do século 19, após exaustivas e minuciosas pesquisas, o brilhante biólogo Charles Darwin apresentava ao mundo o resultado de seus estudos que concluía ser a sobrevivência e o equilíbrio das espécies, fruto do que ele chamou seleção natural, o mecanismo divino para a manutenção do equilíbrio do ecossistema. Essa seleção era conseqüência de os mais fracos sucumbirem na competição com os mais fortes, mais adaptados ao ecossistema até então praticamente intocado pela irresponsável predação que a espécie humana vem promovendo.

Hoje, o desequilíbrio do ecossistema é alarmante com a extinção de muitas espécies, quer sejam elas da fauna ou da flora. Multiplicam-se as ONGs com objetivos definidos para recuperar ou preservar um pouco do que a ganância humana devastou, assim como para amparar aqueles cujo infortúnio fez surgir a miserabilidade como uma camada social só lembrada pelos políticos em períodos pré-eleitorais. Diariamente, as mídias nos trazem relatos de tragédias onde a própria natureza parece não resistir à predação do homem e outras onde o homem é vítima de seu próprio desrespeito à natureza.

Nunca consegui aceitar que os humanos sejam os únicos seres inteligentes do Planeta. Assistindo a espetáculos onde vemos cães, macacos, cavalos, papagaios e outros animais adestrados executarem proezas que nos deixam perplexos por sua habilidade e precisão, não podemos rotulá-las como fruto do instinto ou de reflexo condicionado, até porque, ainda hoje ninguém conseguiu definir satisfatoriamente o instinto, de onde ele surgiu, em que órgão do corpo se localiza, qual o seu mecanismo, como é transmitido intocável aos descendentes. Sempre disse que a espécie humana é a única que usa a inteligência para promover o mau.

Ao longo das décadas somos obrigados a encarar, aturdidos e temerosos, a evolução para pior das maneiras cada vez com maiores requintes de crueldade, desumanidade e desamor “conquistados” pela espécie humana. Chega a ser espantoso lembrar que dela depende o futuro do planeta. Quando inquirido sobre quais seriam as armas para a terceira guerra mundial, Albert Einstein redargüiu: “Da terceira não sei, mas da quarta, arco e flecha”. Nós, brasileiros (americanos também, embora quase todos entronizem os Estados Unidos da América com o termo América, como se eles fossem seres superiores e o resto do continente fosse uma insignificância, mero adereço de um país que vive de promover e patrocinar guerras para ter em sua indústria bélica importante fonte de divisas).

Somos um dos países com uma das mais perversas e injustas distribuições de renda, com um alarmante número de pessoas vivendo abaixo da linha da miséria. Tais condições me levam a lembrar do nosso Hino Nacional e crer que o país tem realmente “um povo heróico” (ou não sobreviveria). Todavia, fico a me perguntar quando se ouvirá seu “brado retumbante”. A criminalidade cresce na razão direta da comprovação que a cada dia mais se constata a desfaçatez, o cinismo com que cada vez maior seja a fração dos nossos políticos que mergulham na lama da desonestidade, da desonra e da malversação do dinheiro público, engordando seus patrimônios pessoais e familiares, condenando o povo a ficar sempre mais desalentado e distante da merecida vida digna, de poder sentir-se realmente um cidadão respeitado por seus governantes.

O presidente Lula, no início de seu mandato, justificava a demora ou o não-cumprimento das promessas de campanha, alegando ser culpa da herança maldita de FHC. Hoje a perplexidade domina a nação e, além fronteiras, deixa estupefatos a todos, mas especialmente os mais carentes (seus principais eleitores) que acalentavam o sonho de um futuro melhor, que são obrigados a assistir e viver o período de maior exposição de corrupção, usurpação e traição de princípios que o Brasil já viveu. E pior, promovido por aqueles que por mais de 20 anos condenaram ininterruptamente essa prática, posando como os paladinos da honestidade, os únicos capazes de promover o “milagre brasileiro”, a redenção da Pátria e de seu povo.

Sempre criticaram a “herança maldita” de FHC, mas precisou de uma atitude do deputado Roberto Jefferson (tomada não sei se por instinto de sobrevivência ou de vingança) para o povo descobrir que em relação à “herança bendita” (a forma vergonhosa mostrada pelo PT de atropelar todos os limites para se locupletar em tempo recorde). A situação de cinismo e falta de vergonha que estarrece a população me fez lembrar um dito popular em voga na minha juventude e repetido por minha mãe: “barata que nunca viu melado, quando come se lambuza”. A face trágica dessa perplexidade nacional é que essa forma de se lambuzar, malversar o dinheiro público, certamente custou muito caro aos que mais necessitavam de um governo cujo estandarte da honestidade fosse realmente um compromisso, não uma mera fantasia. Quanto medicamento ou alimento poderia ter sido distribuído para amenizar sofrimentos e até evitar muitos desencarnes precoces dessa “brava gente brasileira”.

Infelizmente, por falta de informação, o povo brasileiro não consegue fazer uma seleção pelo voto, imitando a seleção natural e melhorando o quadro político nacional, votando e agindo de forma a que nossos políticos aprendam a ter medo de uma reavaliação na próxima candidatura (ACM é um exemplo do destemor dos políticos - renunciou, fugiu da cassação e se reelegeu a seguir). Já estamos assistindo esse mesmo tipo de comportamento por envolvidos nas denúncias que se multiplicam. Parece que em política o Brasil funciona às avessas, diminuem os melhores e aumentam os piores políticos. Ainda bem que, vítima da exploração desde o alvorecer da nação brasileira, o povo brasileiro já vem selecionado pela adversidade e, quanto mais piora a corrupção, mais o povo consegue haurir forças para se adaptar e sobreviver. (Áureo Antonio Érnica - CRMSP 33576)