O futebol é o esporte mais popular do Brasil, o mais rico e o que movimenta mais dinheiro, disso ninguém duvida. No entanto, isso vale apenas para o futebol masculino, se essas máximas forem transpostas para o feminino, ninguém duvidaria de que são falsas.
Medalha de prata nas Olimpíadas de Atenas no ano passado, o futebol feminino brasileiro ainda não tem um campeonato nacional. O Campeonato Paulista ainda é a competição mais forte e que mantém algumas das medalhistas de prata em ação.
Em termos locais, a situação não é diferente. Talvez um pouco pior. Bauru tem um time bastante respeitado, mas que sobrevive às duras penas e graças ao esforço das próprias jogadoras e dos técnicos Billy Tibiriçá e André Requena, principais incentivadores da modalidade na cidade há pelo menos 12 anos.
Atualmente, o time defende o nome Bauru/Semel, mas já foi do BTC. E este é só mais um dos muitos problemas enfrentados. Sem a “camisa” de um clube filiado à Federação Paulista de Futebol, o time não pode disputar campeonatos organizados pela entidade. Embora tenha conseguido no campo a classificação para a Primeira Divisão do campeonato estadual, sem apoio e sem “camisa”, Bauru está fora da disputa.
“Não podemos nem pleitear a bolsa-atleta (incentivo recém criado pelo Governo Federal para atletas sem patrocínio). Mas esse é um problema de todo o futebol feminino, não só de Bauru, porque só pode receber a bolsa os atletas que disputam modalidades ranqueadas. O futebol feminino não tem nem isso porque não tem Campeonato Brasileiro”, revela Billy.
Sem torneios regulares, para manter as atletas em atividade, o time se divide entre o futebol de campo e o futsal, prática já bastante comum no Brasil, inclusive entre atletas da Seleção.
Apesar de todas as dificuldades, o time de Bauru está se renovando. “Nos últimos dois anos, por problemas políticos, que já superamos, desmontamos um time que era muito respeitado e jogava de igual para igual com todo mundo. Agora estamos com um time basicamente formado por meninas de 14 e 15 anos, mesclado com outras que já estão conosco há bastante tempo, na faixa de 19 anos. Dentro de um ano estaremos muito fortes novamente”, prevê o técnico bauruense.
O treinador fala com bastante entusiasmo da atacante Érica, a Eriquinha. “Em São Carlos, a ‘Eriquinha’ entrou no jogo contra o time da casa com o estádio lotado e não tremeu, é uma jogador de grande potencial. Temos outras como ela, mas temos um problema: falta goleira, temos apenas uma”, conta.
Este também não é um problema exclusivo de Bauru. O futebol feminino no Brasil é bastante carente nesta posição. A meio-campista Janaína tenta uma explicação. “Acho que é medo da bola. Eu mesma tenho medo de levar bolada, mas também pode ser porque na linha aparece mais”, declara.
Já Billy até se diverte um pouco com isso. “Acho que é por preconceito também. Jogar futebol feminino e ainda no gol, daquele tamanho, não é fácil”, brinca.
O próximo torneio que o time de Bauru disputará é os Jogos Abertos do Interior, em outubro, em Botucatu. A vaga foi conquistada nos Regionais de São Carlos, em que a equipe ficou em terceiro lugar (futsal).
Para disputar competições mais fortes, o time precisava defender a camisa de um clube. Imediatamente o primeiro nome que surge é o Noroeste. “Não temos contato com ninguém lá. Seria uma boa saída. Temos as jogadoras, sempre conseguimos bons resultados nos torneios que participamos. Inclusive em São Carlos, o Carlos Alberto Seixas (técnico do Norusca) assistiu nossos jogos. Para nós seria uma honra defender o nome do Noroeste. E acho que pelo potencial que temos, não seria ruim para o clube”, afirma.
Billy acrescenta ainda que este tipo de associação já é uma tendência na modalidade. “A maioria dos times de futebol feminino do Interior já estão se juntando a clubes ‘de camisa’, como Palmeiras, Rio Branco (Americana) e Paulista (Jundiaí). O time de Araraquara, um dos melhores do Brasil vai ter que fazer isso, ou com a Ferroviária ou com outro, se não, não poderá disputar um eventual Brasileirão, pois a CBF já disse que vai ter essa exigência”, comenta.