09 de julho de 2026
Regional

‘CEI foi uma armação’, diz ex-diretor

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 3 min

Pongaí - “Foi tudo uma armação.” É desta forma que o ex-diretor administrativo da Câmara de Pongaí (100 quilômetros de Bauru), Abílio Aparecido Perez Júnior, 33 anos, classifica o relatório da Comissão Especial de Inquérito (CEI) e as acusações contra ele de uso indevido de três folhas de cheques do Legislativo municipal.

Conforme publicado na edição de ontem do Jornal da Cidade, o relatório da CEI foi votado e aprovado por unanimidade em sessão extraordinária na sexta-feira passada. O documento afirma que houve negligência do então servidor público municipal no uso dos cheques da Câmara.

Além de ter entregue os cheques como garantia de pagamento de despesa particular a terceiros, Perez é acusado ainda de ter incluído em nota fiscal da Câmara produtos comprados para uso próprio.

O ex-diretor administrativo (ele foi exonerado do cargo quando surgiram as denúncias) negou ontem qualquer participação nas irregularidades apontadas e declarou que tudo não passa de “armação”.

“Eu contesto a CEI desde o início”, disse ele. Perez alega que a comissão perdeu a credibilidade por ser formada por dois vereadores do mesmo grupo político do presidente da Câmara, João Donizete Campoy (PFL). A CEI contou com três integrantes. Campoy foi o responsável pela contratação e exoneração do ex-diretor.

Perez questiona também a legitimidade das testemunhas que foram ouvidas durante a investigação. Uma delas é ocupante de cargo de confiança dentro da Câmara e teria sido pressionada a depor contra o ex-diretor. A outra é um morador de Cafelândia que alega ter visto Perez em um mercado daquela cidade fazendo compras com cheque da Câmara de Pongaí. “Eu nunca entrei nesse mercado que ele falou”, rebate o acusado.

Segundo ele, a “perseguição” teria começado depois de um desentendimento entre o presidente da Câmara e um irmão do acusado. Perez diz ainda que Campoy estava sendo pressionado porque havia prometido o cargo de diretor administrativo para um sobrinho da mulher dele. “Eu acredito que ele (Campoy) fez toda essa armação para me desmoralizar e me mandar embora. E hoje, quem está ocupando o cargo que era meu é justamente o sobrinho”, alega.

O presidente da Câmara negou a “perseguição”, mas admitiu ter contratado o sobrinho de sua mulher para o cargo de diretor administrativo. “Percebi que (para ocupar esse cargo) precisa ser alguém de minha inteira confiança”, justificou ele.

Perez disse que um exame grafotécnico da Polícia Civil de Lins teria comprovado que a letra na folha de cheque encontrada no cesto de lixo da Câmara não era dele.

“Ele (Campoy) ignorou o resultado do exame grafotécnico e mesmo assim jogou toda a responsabilidade em cima de mim”, reclamou o ex-servidor municipal.

O presidente da Câmara nega a existência do exame citado por Perez. Segundo Campoy, os pedaços do cheque foram encaminhados para perícia, mas teriam retornado sem nenhuma análise porque a polícia de Lins alegou não ter condições de fazer tal exame.

Compra em Cafelândia

Segundo a acusação, um dos cheques que teriam sumido do talonário da Câmara foi achado na lixeira, rasgado e com assinatura supostamente falsa de Campoy.

O cheque, no valor de R$ 507,00, teria sido usado para pagar conta de mercado, em Cafelândia. Alguns dias depois, o responsável pela emissão do cheque teria voltado ao mercado para pagar a compra em dinheiro e receber o cheque de volta.

“Nunca entrei naquele mercado para fazer uma compra. Contesto isso até a morte. Se esse cheque foi realmente emitido eu não sei. Isso não é problema meu”, declarou Perez.

Sobre as seis notas fiscais com produtos que não são de uso da Câmara, Perez informou que pagou com dinheiro próprio o material comprado para uso particular. O ex-diretor admitiu a prática, mas se defendeu dizendo que agiu com autorização do presidente da Câmara. “Eu usei apenas o cadastro da Câmara para fazer as compras. Não fiquei com um centavo do que foi gasto”, justificou.

Antes de assumir o cargo de confiança na Câmara, Perez trabalhava na única escola estadual de Pongaí. Ele é funcionário da Secretaria de Estado da Educação, de onde pediu afastamento de dois anos para ser diretor administrativo da Câmara.