09 de julho de 2026
Articulistas

Brotos no lamaçal


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É errado afirmar que a história não é previsível. O cenário político brasileiro, a partir da crise que se desdobra na cadeia de depoimentos dos foros congressuais e nos fatos que se acrescem à montanha de denúncias, não é um horizonte sem cor. Com as primeiras atitudes concretas tomadas no Congresso, como a efervescente movimentação parlamentar e renúncia a mandatos, e, na esfera social, a extensa malha de conscientização, é possível produzir a primeira assertiva, no caso, uma observação, que vem na contramão do que o velho Gramsci garantia: “O velho morreu, e o novo ainda não nasceu”. Ouso dizer que o velho ainda não morreu, mas o novo está nascendo.

Ainda afligem nossos corpos os Tristes Trópicos que, há 50 anos, Claude Lévi-Strauss descreveu, de maneira amarga, depois de conviver com as endemias e as intempéries que assolavam os índios do Mato Grosso. Se aquelas não foram plenamente extirpadas, outras, as endemias políticas, multiplicaram-se nas ondas de um conturbado processo civilizatório, ao longo de cinco séculos, e que resultou em alucinante ritmo de urbanização e modernização institucional, responsável pela engenharia do perfil nacional. Demos adeus ao Império, abraçamos a República, a corte foi suprimida, mas, infelizmente, os cortesãos se mantiveram. Eis aí a raiz mais profunda da sistêmica crise. Temos ainda uma sociedade de cortesãos. Que cortejam o poder em todas as esferas.

Não é de estranhar, assim, o desenho mal-ajambrado que abriga a nossa feição institucional: alternância entre ciclos autoritários e democráticos, ausência de planejamento de longo prazo, descontinuidade administrativa, profissionalização de estruturas do Estado ao sabor do apadrinhamento político, anomia, impunidade e insegurança jurídica, sistemas combalidos como o da Previdência, gestões de serviços precários, Carta Magna de cunho detalhista, tensões permanentes entre Poderes, presidencialismo imperial e a política transformada em profissão das mais rentáveis.

A atual crise sinaliza para o aparecimento de um sistema bi-polar inédito no campo da mobilização político-social. Vejamos, para comparar, dois movimentos do passado recente. Um deles, a CPI de PC Farias, em 1992, que culminou com a renúncia de Collor em dezembro do mesmo ano, levou às ruas uma turma jovem, de caras pintadas, cuja motivação misturava pitadas de civismo e colheradas de tinta verde-amarela, algo de tom carnavalesco-farrista. No passado, a rapinagem de recursos privados e públicos envolvia apenas um ou outro e a distribuição da propina era artesanal. Hoje, o propinoduto é institucionalizado. Partidos, atores individuais, articulações, distribuição tecnológica, bancos, senhas e altos negócios estruturam a negociata. Estratégias, táticas, programas e projetos estão por trás do arcabouço de um projeto hegemônico de governo e partidarização do Estado.

Arquiteta-se o sistema de forma piramidal, à maneira dos exércitos, com cúpula (comandante-geral, generais, coronéis), linha intermediária (majores, capitães e tenentes) e base (as tropas da militância). Furos estratégicos: a cooptação de exércitos aliados foi entregue a figuras sem treinamento; quadros aliados não usavam armas do mesmo calibre; bases desmotivadas; e o jeitinho brasileiro (o toma-lá-dá-cá) acabou dinamitando as pontes para o futuro. Uma bipolaridade de pressões se instala. Primeiro, no campo congressual, onde o talhe corporativista cede lugar à investigação em profundidade. As oposições, com as exceções de praxe, desempenham de maneira competente a ação investigativa. Um cheiro de pizza se sente no ar. Mas cassações deverão ocorrer. Produz-se uma vacina ética com o veneno da crise. E o laboratório é a mídia que faz ampla cobertura dos escândalos. Portanto, o movimento centrípeto - de fora para dentro - é a grande revolução silenciosa que faz gerar brotos no meio do lamaçal. Este é o fio mais forte de nossas esperanças.

O autor, Gaudêncio Torquato, é jornalista, professor da USP e consultor político