08 de julho de 2026
Articulistas

Mecanismos de defesa


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Parecia um dia como os outros, estávamos a mesa para o almoço. TV ligada, o noticiário anunciava os preparativos da população de Hiroshima, no Japão, para as celebrações do dia seguinte: lembrar os 60 anos da “bomba”. Meus filhos Alexandre e Filipe, de 15 anos, questionaram por quê os japoneses queriam lembrar de um episódio que arrasou àquelas cidades e assassinou tanta gente. Então argumentei: “Filhos, isso acontece com muitos povos. Nesse caso, eles querem transmitir a cada geração o que foi aquela tragédia. Trata-se de um mecanismo de defesa para elevar o nível de consciência dos mais jovens, não permitir que esqueçam os males da guerra.

Dessa maneira, forma-se uma consciência embasada no entendimento e no diálogo, na solidariedade. Da mesma forma, periodicamente o povo judeu lembra os horrores do Holocausto. Ano a ano, a população jovem é levada a refletir sobre a perseguição e as mortes que sofreram em sua história. Igualmente, trata-se de um mecanismo de defesa, para que as próximas gerações não esqueçam e não permitam novos holocaustos”.

Comentei também sobre algo parecido em nosso País. Ano passado, por exemplo, foram realizadas, em todo o Brasil, cerimônias, debates, palestras alusivas aos 40 anos do golpe militar responsável por uma ditadura que durou mais de 20 anos. Lembrar e refletir sobre uma página obscura de nossa história também é uma maneira de tomar consciência de que isso não pode se repetir.

E aí, a surpresa. Inquieto, Filipe disparou: “Pois é, pai. Hoje não temos uma ditadura militar, mas temos um governo corrupto!” Nesse momento, fui abatido por uma sensação estranha - misto de euforia e indignação. Uma euforia (talvez inocente) de constatar que meu filho é crítico. Por outro, indignação ao pensar nas perspectivas que essa geração tem (ou não) diante desse momento da sociedade brasileira.

Respirei profundamente três vezes e contra-argumentei: “É filho, o momento é desastroso. Temos que fazer de tudo, cada um a sua parte, para mudar as coisas. Vamos continuar conversando, sempre, sobre esses assuntos.” E discutimos mais sobre a crise política... Cá com meus chips (botões são coisas do passado), pensei: É nossa responsabilidade reorganizar nossos mecanismos de defesa, politizar cada vez mais nossos filhos para que possamos construir nossa história com dignidade. Nossa formação nos faz crer na utopia da transformação. Temos de confiar nas próximas gerações, pois, apesar das raríssimas exceções, ter esperança na classe política atual é difícil (ou impossível?).

O autor, Jorge Kanehide Ijuim, é jornalista e professor de Jornalismo na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul