09 de julho de 2026
Articulistas

'Um bonde chamado desejo'


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O correspondente do The New Yok Times no Brasil, aquele mesmo que um dia disse que Lula costumava se atrapalhar com a “marvada da pinga”, no seu mais recente artigo sobre a crise política tupiniquim comparou o presidente à personagem Blanche Dubois, de Tenessee Williams, na peça “Um bonde chamado desejo”. Se bem me lembro do enredo, a decadente senhora gostaria que todos a tratassem como mártir. Nos seus delírios de coitadismo (nada de mãe pobre e analfabeta) apenas acodem algumas criaturas bondosas, mas inexpressivas, com palavras ou atitudes carinhosas. Como se quisessem dizer: “antes ela do que eu”.

Uma dessas criaturas bondosas seria, por exemplo, Paulo Okamoto, a quem Lula nomeou presidente do Sebrae. Depois de um mês do surgimento da notícia sobre o empréstimo de Lula tomado junto à tesouraria do PT, em 2002, o “querido companheiro”, como Lula um dia o chamou em público, disse já ter pago em espécie esse empréstimo, espontaneamente, em consideração ao amigo. Uma merreca de 29 mil reais. Insuficiente para pagar as meninas da Jeanny Mary Corner, a cafetina de Brasília onde é mais conhecida como Joana Quarteirão. Okamoto sequer se lembrou de pedir recibo que comprovasse o seu magnânimo gesto. Também não quis incomodar (“encher o saco”) o presidente com essa mesquinharia. Eis que outro companheiro bondoso, Jacques Wagner, recém-guindado ao Ministério da Coordenadoria Política, vem a público para dizer que esse tal empréstimo simplesmente “nem existiu”. Foi apenas um adiantamento de despesas de viagens ao então funcionário do PT (Partido dos Trapalhões) para viagens. Sequer deveria ser pago, como de fato não foi.

Agora aparece outro bondoso, Duda Mendonça, mesmo sem ser convocado, para dizer que o PT pagou sua empresa de marketing com o Caixa 2, mesmo. Inclusive com depósitos em dólares feitos na sua conta nas Bahamas, conhecido “paraíso fiscal”. Mas o Lula jamais soube disso... Fico imaginando o que estariam pensando aquelas mulheres grávidas que desfilaram com os seus ventres nus no programa do PT criado pelo mesmo marketeiro. Hoje mães, elas se sacrificaram nas dez horas de ensaios e repetidas tomadas de cena, pelo cachê (terá sido em espécie?). Mas representaram naquele momento, para o povo brasileiro, a esperança de um país mais justo no futuro, a começar pela honestidade dos seus homens públicos. Com Lula presidente.

Choram os intelectuais de esquerda, impotentes diante da frustração do seus sonhos socializantes, da realidade de uma política ainda mais neoliberal e, o que é pior, com os principais personagens metidos em tamanha confusão. Mais de vinte anos de muita discussão, tantas eleições perdidas, milhares de artigos escritos, tudo para construir um partido de trabalhadores, prenhe de valores éticos. Esforço perdido no torvelinho dos interesses menores, da burrice e da ganância. “Nada existe onde fracassa a palavra”, diz o último verso da Elegia do poeta Höderling, que se refere à crise da relação do intelectual, do pensamento filosófico, com o pragmatismo político voltado unicamente para a lógica eleitoral.

Por paradoxal, hoje no Brasil os mais envergonhados são os banqueiros com os seus lucros cada vez mais pornográficos. Sentem-se constrangidos em explicar que ganharam tanto dinheiro graças à política de juros altos do governo e emprestando para o próprio governo, sem nenhum risco, sem imposto de renda. Os investidores estrangeiros também estão satisfeitos. Nem dão pelota para essa crise. Continuam trazendo dólares para especular. Engrossam a legião de cortejadores de Blanche Dubois, na esperança de blindá-la para que agüente firme. Antes ela do que algum outsider com mania de mudanças. Justo agora que a farra está ótima.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC