08 de julho de 2026
Geral

Valor da língua portuguesa é resgatado

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 5 min

A necessidade de sair-se bem em entrevistas e redações para conseguir uma vaga no mercado de trabalho tem feito muita gente procurar por cursos de aperfeiçoamento em gramática, redação e oratória. Quem mais ganha com isso é a língua portuguesa, que tem seu valor resgatado entre os brasileiros. Atualmente, dominar o idioma nacional e saber comunicar-se bem são habilidades indispensáveis em quase todos os processos seletivos.

Coordenador de um instituto voltado às comunicações verbais, o administrador de empresas Fernando Mantovani observa que os selecionadores têm valorizado muito os profissionais que falam bem, que têm facilidade para transmitir orientações e se fazer entender.

“Principalmente para cargos executivos e gerenciais, em que o profissional terá que falar em nome da empresa ou liderar grupos”, comenta.

Na opinião do professor aposentado Gino Crês, o domínio da língua portuguesa é importantíssimo para qualquer profissional no Brasil. E é por reconhecer isso que muitos estão procurando os cursos de aperfeiçoamento.

“As pessoas finalmente perceberam que precisam dominar a norma culta do idioma. Principalmente na vida profissional. Quem não consegue articular pensamentos com clareza e correção tem um grande entrave à ascensão na carreira. E muitos só descobrem a necessidade de aprender a língua sob a pressão das circunstâncias”, adverte.

O professor de técnicas de redação Roberto Magalhães concorda. “Num mercado de trabalho tão acirrado, o candidato tem que levar alguma vantagem sobre o concorrente e isso se faz, fundamentalmente, pela palavra. As entrevistas têm um peso muito grande hoje. E o domínio da língua portuguesa é o cartão de visita do profissional”, defende.

Segundo Mantovani, os cursos de aperfeiçoamento são um investimento para a vida toda. “Porque não adianta estudar, conhecer, saber, adquirir um volume enorme de conteúdo, se você não é capaz de compartilhar, de transmitir o que sabe. O mundo sempre valorizou aqueles que falam. Todos os líderes históricos foram figuras que dominavam a arte da expressão”, enfatiza.

Demanda

Os cursos de comunicação verbal têm como principal objetivo preparar o aluno para falar em público com segurança e desenvoltura. São indicados para pessoas que exercem cargos de liderança, para porta-vozes de empresas e instituições, para advogados, palestrantes, para aqueles que desejam melhorar seu desempenho em entrevistas ou simplesmente para quem quer driblar a timidez e o medo de expressar-se em público.

Segundo Mantovani, muitas pessoas consideram a habilidade de falar bem como um dom, restrito a poucos. “Isso não é verdade. Falar bem é uma arte aprendida. Podemos aprendê-la da mesma forma como aprendemos a andar de bicicleta ou a dirigir um carro”, compara.

Nos cursos de redação, o principal objetivo é aprender as diferentes técnicas da escrita, considerando-se que, para cada situação, há uma linguagem e um formato apropriados. O curso é indicado para todas as pessoas, mas a maior procura é por estudantes que se preparam para o vestibular.

É o caso da jovem Mariana Moreira Antunes de Souza, 18 anos, que pretende prestar o vestibular para Direito no final deste ano. “Além de preparar para o vestibular, sei que um advogado precisa escrever bem, saber conversar, estar informado sobre atualidades. Sei que vou precisar muito disso, não só hoje, mas também no futuro”, afirma.

A estudante Daniella Audi Blotta, 16 anos, reforça. “Ter um bom texto para o vestibular é um objetivo, mas o curso também ajuda a refletir sobre o mundo. E com certeza será um diferencial para mim no futuro. Porque escrever é fundamental”, acrescenta.

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Idioma é identidade de um País

Para o professor Darvino Concer, autor da coluna Diálogo do Português, veiculada aos domingos pelo Jornal da Cidade, a fidelidade ao idioma é essencial para se preservar a identidade de um País.

“Por terem perdido sua hegemonia para os ingleses no passado, os franceses preferem que se fale muito mal o francês a que se fale inglês. Eles não admitem usar camisetas escritas em inglês ou dar nomes em inglês para as coisas. Nós, no terceiro mundo, no entanto, temos a cultura de que precisamos aprender uma língua estrangeira”, observa.

Segundo Concer, uma das razões para isso está no contato com diferentes povos e culturas que o Brasil teve durante o processo de colonização.

Na opinião dele, a valorização da língua portuguesa depende de uma unificação do idioma. “A língua portuguesa ocupa o sexto lugar na escala mundial de domínio de idiomas, no entanto, o português que falamos aqui é muito diferente do que é falado em Portugal, que é diferente do que é usado na África. Aliás, lá só se fala português nas escolas, porque em casa e nas ruas eles usam dialetos”, comenta.

Concer defende que a real valorização da língua portuguesa só ocorrerá quando o idioma passar a fazer parte da bibliografia universal, como já ocorre com o inglês e o espanhol, por exemplo. “Mas, para isso, precisamos primeiro unificar o idioma em todos os países que o falam. Para isso, seria necessário haver uma reforma da língua portuguesa no Brasil, Portugal e nos demais países lusofônicos. Já existe um trabalho nesse sentido, mas ele está parado”, comenta.

Concer lembra, ainda, que quem domina seu idioma entende melhor o mundo ao seu redor, conhece melhor as normas e leis do País, entende melhor as entrelinhas em documentos e contratos. “Portanto, quanto melhor eu aprendo o idioma de um País, maior será meu nível de cidadania”, acrescenta.

Concer admite que as regras da língua portuguesa são muitas e minuciosas. “Mas aprender um idioma é dominar uma ciência. E esse aprendizado é contínuo. Tanto que advogados e jornalistas são os profissionais que mais cometem erros de português. Não porque não saibam, mas porque são os profissionais que mais falam e escrevem”, encerra.