09 de julho de 2026
Geral

'Idioma não merece nosso desprezo', diz Gino Crês

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 5 min

Os recentes depoimentos de deputados e partidários às Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) no Brasil têm sido palco de inúmeras afrontas à norma culta da língua portuguesa. Para o professor aposentado Gino Crês, a desvalorização do idioma nos últimos anos tem partido das próprias escolas, que não oferecem o devido incentivo ao aprendizado da língua.

Crês salienta que dominar a língua portuguesa não tem que ser sinônimo de falar difícil, mas também não se pode permitir o total desrespeito às normas, como vem ocorrendo em algumas situações. Para ele, é preciso encontrar um meio-termo entre os extremos: nem conservador demais, nem anárquico. Confira trechos da entrevista.

Jornal da Cidade - O senhor concorda com a afirmação de que a língua portuguesa vem sendo “assassinada” nas últimas décadas?

Gino Crês - Por vários fatores, cometem-se muitos “desvios” das normas cultas. Em algumas situações, tem-se vergonha de falar e escrever corretamente por medo de ser tomado como pedante, esnobe. Esquece-se de que o belo e o certo têm que ser extravasados para serem admirados e imitados.

JC - Onde o senhor acha que esse problema começou e por quê?

Crês - Esses “desvios” vêm acontecendo em nossas escolas, que poderiam ensinar a escrever, mas não o fazem. Não que as aulas de redação sejam em menor número do que o desejado. O problema é que essa matéria é ensinada de forma errada, por meio de assuntos distantes da vida real. Há também necessidade de bons e estimulados professores nessa área. Não podemos deixar de lado o estímulo à carreira do professor. Professor valorizado é professor estimulado. Professor estimulado é quem motiva os alunos e não apenas transmite conhecimentos. A leitura é um dos meios mais preponderantes para se escrever e falar bem. O livro é um dos maiores tesouros que a humanidade descobriu. Nele, além de uma grande riqueza gráfica, tem-se um celeiro de informações. Não cultivar a leitura é um desastre para quem deseja expressar-se bem. Quem lê interioriza as regras gramaticais básicas e aprende a organizar o pensamento.

JC - Com o advento da Internet, as pessoas - especialmente os mais jovens - criaram uma nova linguagem a partir da língua portuguesa. O que o senhor acha disso? Em que ponto essa “linguagem” pode ser prejudicial ou benéfica?

Crês - Para a geração “ponto com”, basta um simples clique para que uma avalanche de informações desabe sobre a cabeça de nossos jovens. Eles se conectam com o mundo inteiro. Embora estejam inundados pelo mundo da informação, muitos se sentem perdidos, sem uma bússola que lhes indique o rumo a tomar. Esta é a conseqüência paradoxal da sobrecarga de informação. Fora do trabalho e da busca de informação, o e-mail é também cada vez mais usado como meio de comunicação na vida de nossos jovens. É claro que com o advento da Internet, os mais jovens estão criando uma nova linguagem. Fica comprovado que a língua portuguesa é dinâmica, abre-se um canal de comunicação. Nesse caso, devido à vida agitada que se leva, as abreviaturas expostas tornam-se muitas vezes ininteligíveis e o e-mail, devido à displicência e ao descuido, é redigido confusamente e com erros de português. Compete aos professores adestrar os alunos nos diferentes gêneros de escrita: a carta, o memorando e até mesmo o e-mail e alertá-los para que não transfiram suas abreviaturas para a forma culta da língua. Aliás, o domínio da língua é importantíssimo para qualquer profissional, tanto que na hora de admitir novos funcionários, costuma-se fazer testes de expressão escrita dentro dos padrões formais da língua.

JC - Estudantes dos ensinos fundamental e médio costumam reclamar que a língua portuguesa é chata e difícil. O que o senhor diria para eles?

Crês - Para os nossos estudantes não só a Língua Portuguesa é chata e difícil, como também a escola e os professores, que reduzem o prazer do saber e retraem a arte da dúvida, esgotam a curiosidade e a criatividade dos seus alunos ao não permitir perguntas. O maior trabalho de um professor é estimular seus alunos a desenvolver a arte de pensar. Não há como estimulá-los a pensar se não aprenderem sistematicamente a perguntar e duvidar. Ninguém gosta da dúvida, ninguém gosta de estar inseguro. Todos gostamos da certeza, da resposta completa e os alunos também. Diante desse quadro: professores desestimulados, alunos oprimidos tendo vergonha e medo de perguntar, só lhes resta uma saída: a fuga para o bar mais próximo da escola, onde o bate-papo vai ensinar tanto quanto. Chato ou não, o certo é que o nosso idioma é extremamente rico e, por isso mesmo, cheio de segredos e sutilezas. A formosíssima língua portuguesa, de tantas e belas tradições, não merece o nosso desprezo. Parece-nos justificável a esperança de que haja por parte dos alunos e também dos professores, com dedicação e amor, uma vigorosa reação contra essa desconsideração.

JC - O senhor defende o resgate do português conservador?

Crês - Os dogmáticos se prendem à norma estabelecida cristalizada no tempo, ainda quando em franco desuso e à beira do anacronismo. Lembramos que não existe língua que funcione sem norma, seja ela qual for. Toda língua tem a sua história. Os liberais, ao contrário, mostram-se transigentes e compreensivos, aderindo com freqüência às coisas novas que já sentem firmadas nas tendências do idioma. Hoje, aposentado, a minha preocupação maior é a educação como um todo. É a preparação da pessoa para viver em sociedade. Ser cidadão é sentir-se responsável por aquilo que acontece fora da porta da nossa casa. A escola deve preparar as crianças e os jovens, não só do ponto de vista dos conteúdos curriculares, mas ainda, e principalmente, educar para a cidadania.