09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Um reconhecimento aos funcionários públicos!


| Tempo de leitura: 3 min

Ao conhecer um pouco da administração municipal, estive em contato com pessoas admiráveis: os servidores públicos. Vindo da iniciativa privada nas áreas de administração e finanças, na maioria do tempo em multinacionais e em suas fábricas, respondi por mais de dois anos pela Secretaria Municipal de Administração de nossa cidade, Bauru.

Foi uma época atípica, com a grande expectativa do cidadão para que se fizesse as coisas corretamente. Afinal, acompanhávamos um Vice-Prefeito em mandato-tampão, devido à destituição do Prefeito por grave crise político-administrativa-financeira; houve também a queda de quase todo um segundo escalão.

Alguns preceitos, que deveriam ser normais, puderam ser aprimorados: atitudes restauradoras de princípios ético-morais, procedimentos mais técnicos do que políticos, valorização do funcionário de carreira e projetos de qualidade total dentre outros.

No âmbito da Secretaria de Administração há duas atividades cruciais dentro de um projeto desses: materiais-licitações e recursos humanos-concursos públicos. Mas estes são assuntos para uma outra oportunidade.

Neste, enfoco o que considero o coração da Prefeitura: seu quadro de funcionários. Não seu número, sua distribuição, organograma, salários, ou ainda destaques pessoais. Comento um aspecto talvez desconhecido pela maioria da população: “Como se sente e como reage o servidor público às mudanças periódicas de seus chefes”.

E dentro dessa riqueza que é o ser humano, pude ver que o funcionário público respondeu a alguns estímulos comuns nas empresas privadas, num primeiro momento de forma diferente. Ao ser chamado a opinar na solução dos problemas, a manifestar-se publicamente com idéias novas e a enfrentar desafios, inicialmente foi notório o comportamento reticente, desconfiado, cauteloso. A reação era como se dissessem “O que pretende o novo Homem?”

Após um período de insistência, uma pequena reação aqui, outra ali, mostraram um processo crescente de participação, compromisso e criatividade. E esse crescente de qualidade perdurou com substanciais ganhos para o serviço público.

A situação mudou quando informei que deixaria o cargo, pois meu compromisso com o Prefeito tinha vencido e compromisso anterior me aguardava.

Imediatamente, de forma bem sensível, houve um recolhimento aos procedimentos de quando tínhamos começado a trabalhar juntos, dois anos antes. Aos poucos, de forma insegura, foram me explicando o motivo dessa alteração de atitude. Quem viria no meu lugar? Como trataria a redistribuição de cargos? Quantos assessores em comissão traria? Lembro-me até de uma frase: “Se a gente foi bem com o secretário que saiu, cuidado!”

A simples troca de comando desencadeava o repetir de um complexo sistema de segurança pessoal: “E se o novo achar que sou do grupo do anterior!”, “Os que virão com ele, terão que se firmar sobre nós que somos de carreira!”

Daí para frente ressurgia o que erroneamente chamamos de “acomodação do funcionalismo”. O histórico é muito forte: situações constrangedoras e até mesmo humilhantes e perigosas profissionalmente, vividas em “trocas de comando” anteriores, fazia com que “se recolhessem” até passar o momento crítico.

Quanto desperdício em energia e trabalho a cada quatro anos, quando não em períodos menores, pela inevitável troca de comando!

Não me vejo como um grande entendido em administração pública. Mas, convictamente, conheci uma riqueza de pessoas de muita capacidade, conhecimento, potencial e, acreditem, de amor ao trabalho da administração pública.

Muito ganharia nossa cidade se fosse dada ao funcionário de carreira a preciosa oportunidade de trabalhar com segurança. O trabalho teria muitos resultados positivos, convicção baseada em três qualificações indiscutíveis da maioria desses nossos servidores: conhecimento da legislação, informações históricas e muitas boas idéias para solução dos problemas, tanto do dia-a-dia, imprevistos, como os mais constantes do serviço público.

Antonio Gerson de Araújo - economista, professor universitário e consultor, ex- Secretário Municipal de Administração