Aos 55 anos e autora de um trabalho sobre o universo feminino e outro sobre arte e psicanálise, a psicodramatista paulistana Marina de Oliveira Costa teve como exemplo a própria trajetória pessoal e profissional para desenvolver seus projetos.
Formada em direito no Largo São Francisco, Universidade de São Paulo (USP), ela casou e se mudou para o Rio de Janeiro. Teve três filhos, de 25, 27 e 30 anos, e resolveu deixar o direito de lado para se dedicar à decoração e à pintura. “Sempre me vi sozinha em relação à educação deles porque eu não tenho mãe e tudo dependia de mim. Como artista plástica, ficava mais livre e disponível para meus filhos”, disse, em entrevista concedida no último dia 5, no ateliê Sonia Gabrielle, ao Jornal da Cidade.
No dia anterior, Marina e as psicólogas Claudia Leal e Cristina Fontes apresentaram a pesquisa “Revisitando as mulheres que nos habitam”, seguida de um bate-papo sobre o os sentimentos compartilhados pelas mulheres maduras, na faixa dos 50 anos. Segundo a psicodramatista, nessa fase é comum conviver com as perdas e perder papéis sociais, entre eles o de mãe, uma vez que, em geral, os filhos casam e se mudam da casa dos pais.
“Com o crescimento e saída dos meus filhos, se estabeleceu um vazio, por meio do qual fui voltando para minhas origens, restando tudo aquilo que deixei ou não pude ser”, conta Marina. Desde então, ela passou a investir em sonhos e projetos que sempre a atraíram. Se formou em psicodrama no Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo e iniciou um projeto que utiliza a pintura e técnicas psicodramáticas com psicóticos atendidos por ela no hospital Caps São Mateus, em São Paulo.
O trabalho, entitulado “Tintas e fragmentos: retalhos de memórias”, é inspirado nos moldes psiquiátricos utilizados por Nise da Silveira, segundo a psicodramatista. Na década de 50, muitos pacientes com esquizofrenia ou transtornos mais graves costumavam receber injeções de insulina e choques.
“O psicótico se sente muito dividido em relação a ele mesmo e ao mundo. A tela funciona como um objeto intermediário, onde ele pode passar seus temores e delírios, e, através desses contornos, pode conhecer melhor esse universo que o amedronta”, diz Marina, ressaltando que a pesquisa com psicóticos enriquece seu trabalho e sua vida. Compartilhe outros detalhes de sua carreira na entrevista a seguir.
Jornal da Cidade - A senhora começou no direito, partiu para a pintura e depois para a psicologia. Como foi essa passagem?
Marina de Oliveira Costa - Virei psicodramatista e depois disso percorri um caminho ao contrário: fiz pós-graduação e agora estou fazendo o curso de psicologia, mais para legitimar esse trabalho que faço com os psicóticos. Acho que juntei pedaços e esse trabalho de pesquisa que desenvolvo tem muito a ver com isso: é sobre a mulher na idade das perdas. Ainda é possível plantar ou só resta colher?
JC - Explique melhor o tema da pesquisa.
Marina - As mulheres vão envelhecendo e deixando os fragmentos perdidos no tempo. Acredito que chega uma época, por volta dos 50 anos, que vamos perdendo papéis: o de mãe, porque os filhos crescem e vão embora; o de profissional porque, em geral, vamos aposentando; algumas vezes, o papel de companheira. Me refiro às perdas não apenas no sentido de morte literal, mas a morte de coisas que dávamos valor. Com as perdas, as pessoas deixam de perceber as mudanças da vida. Às vezes nos apegamos muito a esses restos de papéis e o que acontece, muitas vezes, é que a pessoa sobrevive ao invés de redirecionar essa energia para papéis novos. A apresentação teve como objetivo redescobrir, através da apresentação de personagens, a autora que está dentro de nós. Porque muitas vezes o que a autora manifesta nos personagens é justamente aquilo que ela oculta de si mesma.
JC - Em Bauru, há diversos grupos formados por pessoas da terceira idade. Além de compartilhar sentimentos, quais aspectos a senhora destacaria como positivos nessa convivência?
Marina - O grupo pode ajudar as pessoas a se escutarem, eles têm a função de serem espelhos dos participantes. Conheço um grupo de maturidade no Hospital das Clínicas e acho interessante falar sobre o desenvolvimento pessoal. Há pessoas que começam a se arrumar para ir ao grupo, algumas tingem o cabelo, por exemplo. Há um movimento de vida motivado pelo grupo.
JC - A senhora falou muito das mulheres. Os homens não sofrem com essas perdas?
Marina - Não sei. A pesquisa tem de ser direcionada para ser profunda, então não dá para abranger tudo. No momento o foco são as mulheres, primeiro por causa da identificação com meu sexo e porque eu acho que os homens sempre tiveram seus desejos atendidos, por conta do ambiente de trabalho ou pela própria cultura. E as mulheres, talvez, foram privadas durante muito tempo. Elas se casavam, tinham filhos e achavam que tinham que terminar a vida sem desejar mais nada. Para elas, havia um lapso muito grande sem significado e sem desejo, quando os papéis começavam a terminar. Então, algumas começaram a esticar seu papel. Por exemplo, ela estica o papel de mãe, vira avó, mas começa a achar ruim se a nora não levar o neto para visitá-la, ou o papel de companheira, que algumas vezes já está morto. Outro dia fiquei sabendo da história de uma senhora que já está viúva e disse: “Ontem fez 28 anos do meu noivado”, quer dizer, a outra pessoa, concretamente, já morreu há alguns anos e essa pessoa está esticando seu papel. Ela não está falando nem do casamento, mas da data do noivado. Há muitas pessoas assim e por isso acho interessante trabalhar ou começar um movimento nesse sentido: deixar o passado ir embora, como o autor Pierre Fédida se refere no sentido de enterrar os mortos. A idéia é poder viver a vida presente e não só arrastar o papel, mas criar papéis novos, porque somos capazes disso.
JC - Além da identificação com a faixa etária alvo de sua pesquisa, quais foram as conseqüências desse trabalho para sua vida?
Marina - Acho que sempre ganhamos quando nos relacionamos com o outro, porque quando exploramos aspectos humanos estamos nos explorando. Muitas vezes, descobrimos aspectos desconhecidos que foram tocados pelo outro.
JC - A senhora falou que algumas mulheres na fase nos 50 anos correm o risco de entrar em depressão. Qual é o conceito da doença?
Marina - Segundo Fédida, a pessoa que está em depressão acaba se congelando para não sentir e acaba petrificando todos os seus sentimentos. O autor diz que muitas vezes algumas pessoas sentem perdas e não dão a devida atenção a elas, são perdas banalizadas e mortes carregadas no corpo. Fédida também aborda a dificuldade que uma pessoa tem de enterrar essas perdas sozinhas. Nesse sentido, é necessário um grupo ou um terapeuta para iluminar esse caminho.
JC - Detalhe mais sobre psicodrama e seu trabalho com psicóticos.
Marina - O psicodrama teve como criador Jacob Levy Moreno, que foi muito influenciado pelo método fenomenológico-existencial. Ele partia sempre do presente, o que se está sentindo aqui e agora. Meus pacientes colocam na tela o que eles sentem no momento, porque cada um tem um tempo interno de elaborar o que está sentindo ou não. A partir do simbólico, entro no momento presente deles. Falo para eles: “Quem está dentro dessa casa?” E eles entram nesse cenário porque o mundo deles é imagético. O inconsciente fala através das imagens, alguma coisa rompeu e eles não conseguem mais se comunicar conscientemente. Por isso é fácil trabalhar com eles por meio da pintura, porque ela fala através das imagens, que é a linguagem deles. Isso faz com que eles se desamarrem de um ponto onde ficaram fixados. Tenho um paciente que era “amarrado” quando criança, acorrentado pela mãe, e suas pinturas repetiam isso muitas vezes, até que um dia esse tema foi rareando e outras pinturas vierem, ou seja, ele se permitiu olhar outras coisas. Na última vez, o paciente se permitiu falar da avó, que era uma pessoa que o acolhia quando ele era deixado de lado, universo que antes ele não era capaz de ver.
JC - É necessário ensinar conceitos ou técnicas de pintura aos pacientes?
Marina - Não. Eles pintam o que sentem, porque não é uma escola de pintura, mas uma escola onde quero ver os sentimentos. Comecei com quadros individuais, como era no hospital Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, mas depois fui vendo a necessidade deles. Hoje faço uma tela grupal, de quatro metros, onde eles pintam juntos. Essa pintura tem um enfoque de terapia grupal e às vezes peço para que os desenhos se relacionem, porque quando o paciente consegue fazer com que a imagem dele fique perto do seu vizinho faz um ensaio para os papéis imaginários, que eles vão desempenhar fora do hospital. Também peço para eles pintarem em cima da imagem da semana passada, isso é uma coisa que eles mesmo me ensinaram, porque, como Nise da Silveira dizia, “Nós aprendemos com eles, eles é que vão nos ensinando o que deve ser feito”.
JC - Há livros, por exemplo, que apontam que os cantores Elis Regina, Cazuza e Kurt Cobain como bipolares (doença ligada à variação de humor, que alterna períodos de euforia e tristeza), uma de suas especialidades no Caps São Mateus. A senhora acredita que esse e outros transtornos psicóticos estão ligados às artes?
Marina - Eu não faria uma ligação dessas. Mas a linguagem deles é imagética, então é muito fácil estar ligado às artes, porque a arte é um símbolo, mas não que os artistas sejam sempre psicóticos ou esquizofrênicos.
JC - Alguns psicólogos defendem a idéia de que não existe normalidade e dividem as pessoas em psicóticos, aqueles que sofrem algum transtono psiquiátrico, e normóticos, grupo formado pelo restante da sociedade, partindo da idéia de que todos somos sujeitos a neuroses em alguma fase da vida, o que a senhora pensa sobre isso?
Marina - Acho que é a realidade, porque todos somos complexos. Os psicóticos envolvem uma cisão profunda de identidade do “eu” em relação a si próprio e ao mundo. Essa pessoa tem uma relação muito difícil ou não a tem com o mundo, Normalmente os psiquiatras consideram os psicóticos como pessoas sem sensibilidade ou com esgotamento afetivo, mas o que acontece é que eles sentem demais as coisas. Então, o que é preciso fazer é conter um pouco essa sensibilidade. Em relação às outras pessoas, acho que todos passam por crises, ao se conhecerem ou vivenciarem perdas. As pessoas costumam vivenciar essas “mortes” de maneiras diferentes: há pessoas que constróem muros e outras pontes. Há algumas muito resistentes às mudanças e encontram dificuldades para se adaptarem à vida. Então elas vão construindo uma defesa, uma espécie de um círculo de giz: às vezes ela acha que é o outro que não a deixa fazer isso ou aquilo, mas muitas vezes é ela mesma que exerce controle e isso faz com que a pessoa se dê poderes que na realidade ninguém tem. A vida é movimento. O que precisamos é aprender a aceitar a vida no seu fluxo e aceitar o outro como ele é.