No programa Observatório da Imprensa, da TV Cultura, desta semana, que tratou da crise política com correspondentes de veículos estrangeiros no Brasil, as palavras do correspondente do periódico italiano Corriere Della Sera, signore Rocco Cotroneo, deveriam provocar reflexão de nossos meios de comunicação. Segundo o periodista italiano, em nosso noticiário está difícil separar o que é fato do que é fofoca e do que é opinião, tal a confusão causada pelo jornalismo excessivamente farto e declaratório que nossa imprensa vem fazendo. Isso, inclusive, fez o jornalista opinar que acha inútil a maior parte do noticiário político que estamos produzindo neste País.
Entretanto, o noticiário sobre a crise política - e não vamos nem falar da difusão malfeita dos meios de comunicação do leque de opiniões sobre o assunto que há na sociedade brasileira - não tem sido inútil. Para alguns tem sido até bem útil, e isso o correspondente italiano também detectou. Disse que os políticos têm usado a mídia para se ver revigorados eleitoralmente.
Disse e acertou: o prefeito de São Paulo, José Serra, é um desses beneficiados, como mostram recentes pesquisas sobre sua gestão e suas possibilidades como candidato a presidente do Brasil no ano que vem. Além disso, as CPIs televisionadas têm se constituído num show de horrores, de arrogância, de covardia e de desrespeito ao Estado de Direito.
Dessa crise toda, além dos possíveis, esperados, porém amplamente incertos resultados em termos de melhora da nossa política, pode-se prever que ficará um saldo bastante questionável para nossa imprensa: acredito que ela não terá saído engrandecida desta crise. Não apurou nada. Correu atrás de denúncias de um Roberto Jefferson que se aproveitou dela para extrair a si mesmo das investigações de corrupção. Levantou críticas de diversos segmentos da sociedade devido à tendenciosidade com que tem se conduzido, e depois as sufocou. Publicou boatos, fofocas e até mentiras como fatos, e sequer se retratou. Enfim, fez um trabalho polêmico... até agora.
A imprensa não gosta, não aceita e até combate qualquer tentativa de se questioná-la. Porém, não se satisfazer com o que já produziu de vantagens para determinados grupos políticos e passar a preocupar-se um pouco com a própria credibilidade e respeitabilidade parece-me não só inexplicável, mas estúpido. A menos que exista uma relação custo-benefício para a imprensa do Brasil que ainda não ousei cogitar...
Eduardo Guimarães