Nota-se, não apenas no meio político, mas em parte da sociedade, uma intensa preocupação em blindar o presidente Lula das acusações de corrupção perpetradas pelo seu partido de coração (quem não se lembra de seu encontro com o presidente Bush, com a estrela vermelha na lapela?) É um movimento constante, numa preocupação de afastar de Lula das responsabilidades que lhe recaem como chefe máximo da esfera executiva. Como tal, jamais poderia esquivar-se, jamais poderia se dizer “estupefato, indignado mais que qualquer cidadão”, pois que Lula não é um cidadão comum. É o chefe! É o presidente, muito embora, algumas vezes, ele mesmo pareça não acreditar nisso.
Lula mente, mas mente descaradamente. Mente quando pede desculpas pelos “erros” (estranhamente, petistas não cometem crimes, apenas erram) do partido que sempre esteve intimamente atrelado à instância do poder, como se ele não tivesse regozijado-se antecipadamente a cada vitória do governo nas votações de num Congresso capitaneado pelo superministro Zé Dirceu. Mente, descaradamente, quando afirma que “afastou de imediato os envolvidos sempre que se percebia algo errado”, como divulgou em seu pronunciamento.
Ninguém pode se esquecer dos episódios envolvendo Benedita da Silva, Anderson Adauto, Francisco Meirelles, Romero Jucá, Marta Suplicy, Roberto Jefferson, Dirceu e tantos outros “braços direitos de Lula” que, após as denúncias pela mídia, ganhavam o “perdão presidencial” pela “falta de provas”, ainda que a tal “falta de provas” fosse, em verdade, o absoluto engavetamento de qualquer investigação.
Quantos não foram os denunciados que, pela caneta presidencial, ganharam “blindagem” especial de Lula, com foro privilegiado ou medidas provisórias, permanecendo incólumes nos corredores do governo? Lula mente, e mente da forma mais pueril, como todos os integrantes do partido ou os envolvidos no esquema do mensalão, dos correios, etc. É a mentira crônica, inviolável, insanável.
Mas, mesmo com esse perfil anacrônico, por qual razão tantos tentam “salvar a imagem” do presidente Lula? Certa feita escrevi, nesta Tribuna, um artigo sob o título “Síndrome da baleia encalhada”, referindo-me à comiseração coletiva diante dos percalços de Lula e sua luta pela sobrevivência. Hoje, reparo que Lula é tratado como o “filho drogado”, aquele mesmo que os pais, estupefatos diante da prisão em flagrante, comparecem à delegacia para descobrir a natureza incapaz de o filho gerir os próprios atos, quando eles (os pais), nele confiavam de forma incondicional. E, nesses casos, sempre fica a pergunta: “Onde foi que eu errei? Será que eu sou culpado por essa desgraça com meu filho?” Para os eleitores de Lula (e, claro, foram 50 milhões), admitir a derrocada de Lula seria admitir a própria incapacidade de eleger alguém com capacidade administrativa e liderança. Seria admitir uma grotesca falha coletiva, digna dos delírios coletivos que tanto mal causaram à humanidade e, diante desse impasse, precisam acreditar na auto-afirmação da lisura do presidente.
Finalizando, que nem venham os arautos da moralidade petista dizer que “Lula é um líder”, pois liderar é mais, muito mais que ser uma figura alegórica, um símbolo. Houvesse alguma liderança em Lula a presente “ingovernabilidade” jamais teria encontrado espaço, a não ser que ele, realmente, fosse quem eu acredito que seja: incapaz, sim, mas inocente, jamais.
Ivan Garcia Goffi - OAB/SP 165.173