Rebelde de muitas causas, original, ousado e dono de uma mente ultrafrutífera, ele é um senhor de 68 anos - completa 69 em outubro - cujo último trabalho ataca o machismo e outros preconceitos e defende o pagode.
Estamos falando de Tom Zé, que se apresenta hoje em Bauru através do projeto Trama Universitário, num show exclusivo para universitários, com abertura da banda bauruense Mercado de Peixe.
O cantor e compositor antecipou ao JC Cultura, em entrevista por telefone, que tocará parte da ópera-pagode de seu último disco, “Estudando o Pagode - Tom Zé na Opereta Segregamulher e Amor”, considerado pela crítica um dos mais criativos e audaciosos do Brasil dos anos 2000.
A outra metade do show será dedicada a clássicos de sua carreira como “Xique Xique”, “Jimi Renda-se” e “Augusta, Angélica e Consolação”, entre outras.
O baiano de Irará simpatiza com a idéia de tocar exclusivamente para um público jovem. “Como o que eu faço não são canções - as canções são um invólucro do verdadeiro produto que eu fabrico, que é a rebeldia -, então por fatalidade os jovens são sempre atraídos por isso”, acredita. Confira, a seguir, trechos da entrevista.
JC Cultura - Muito já se falou sobre o experimentalismo, a originalidade e as polêmicas criadas por sua obra. O que na verdade você busca com seu trabalho?
Tom Zé - O principal alvo é a distração do público e a alegria da audiência quando recebe novidade e quando é contemplada com substância mais ou menos proteinada. Tem também a satisfação pessoal, claro. A satisfação pessoal vem da comunhão; da quantidade enorme de pessoas que tomam direção na vida e paixão pela vida e pelo trabalho depois que me escutam, ou quando começam a me escutar; dos tipos de e-mails que eu recebo de pessoas tendo revelações de suas potencialidades; e, principalmente, da alegria de ter feito a vida toda uma coisa que procura ser útil ao desenvolvimento e à compreensão do mundo, fornecendo a cada geração possibilidades dela compreender um pouco mais seu tempo.
JC - No novo trabalho, você critica o terror do machismo, mas os críticos em geral têm se apegado mais à questão do pagode. Você se considera um compositor incompreendido?
Tom Zé - A sociedade defende seus valores mesmo que eles sejam os mais espúrios. A coisa de segregar o pagode fica mais fácil do que discutir o problema da mulher. Mas isso é temporário. Cada hora o interesse das populações se dirige a um lugar.
JC - Esse feedback em relação à sua obra difere no Brasil e no Exterior? As pessoas lá fora também interpretam dessa forma?
Tom Zé - Lá fora, o âmago do disco é mais motivo de interesse e discussão. É muito mais ampla a discussão. E os intelectuais dão muita importância. Tenho três capas de revistas de música na França, três ou quatro capas de suplementos culturais em Portugal, na Itália, isso nessa última excursão - que não faz parte das coisas patrocinadas pelo governo brasileiro.
JC - Isso quer dizer que o público brasileiro subestima os assuntos que você coloca em questão?
Tom Zé - Nós vivemos sob a égide de uma comunicação de massa feroz e degradante que divulga a filosofia do crime de Hollywood, e nela vem embutido o propósito de o Brasil se tornar um País analfabeto. Então nós vivemos isso. Mesmo as massas estudantis estão despolitizadas, desinteressadas pela solidariedade humana. Veja-se a pesquisa realizada pela MTV em que grande quantidade de jovens - a maioria - diz que é hedonista, consumista e que quer ser assim mesmo. Não querem ser solidários e não querem mesmo.
JC - Então é de se esperar esse comportamento em relação à sua obra?
Tom Zé - Sempre algumas cabeças de ponte recebem as mensagens e se interessam. Você se lembra do disco “Estudando o Samba”? Passou 20 anos para esse disco fazer sucesso no Brasil. Então o “Estudando o Pagode” talvez precise de mais uns dois anos para as pessoas começarem a entrar na verdadeira substância que está condensada nele.
JC - O que o público pode esperar do show de Bauru? O destaque será para “Estudando o Pagode”?
Tom Zé - Algumas peças que são da espinha dorsal do meu trabalho, para as pessoas saberem o que aconteceu através desses anos, e uma representação pequena da opereta (“Estudando o Pagode”). Vai ter a opereta, mas como ela um pouco reduzida dura cerca de 30 minutos, os outros 30 minutos a gente faz alguma outra coisa - músicas de sucesso como “Xique Xique”, “Companheiro Bush”, “Jimi, Renda-se”, “Augusta, Angélica e Consolação”.
JC - E sobre a parte cênica, que você sempre destaca em seus shows? Você trará alguma parafernalha diferente, como nos trabalhos anteriores?
Tom Zé - A representação da ópera em si, feita como se fosse um Teatro Pobre, o chamado Teatro Pobre criado pelo (polonês Jerzy) Grotowsky, é uma coisa de encenação, é uma narrativa e é raro ter música popular porque não é uma narrativa de ópera convencional. Isso cria uma sucessão de acontecimentos que são jogados para o cognitivo da platéia.
JC - O show de hoje será aberto exclusivamente para universitários. Como é sua relação com esse público?
Tom Zé - Meu trabalho é sempre para os universitários. Como o que eu faço não são canções - as canções são um invólucro do verdadeiro produto que eu fabrico, que é a rebeldia -, então por fatalidade os jovens são sempre atraídos por isso.
JC - E por que essa sua relação com a rebeldia?
Tom Zé - Às vezes, um artista pauta sua vida com uma maneira de abordar o universo e a estética musical que é sempre pondo em questão as leis estabelecidas. E quem trabalha assim acaba trabalhando no limite da música popular, no limite do que é som, ali já na fronteira onde quase não é mais som e quase não é mais música. E isso acaba sendo sempre uma coisa à qual pode se colocar o título de rebelde.
• Serviço
Shows de Tom Zé e da banda Mercado de Peixe, hoje, a partir das 22h, na Cervejaria dos Monges. Exclusivo para universitários, com ingressos gratuitos. Avenida Getúlio Vargas, 7-50. Mais informações pelo site www.tramauniversitario. com.br. Apoio: 96 FM.