Quinhentos anos antes de Cristo, o grego Pitágoras, considerado um dos gênios da matemática, presenteou o mundo com uma fórmula que não envolvia números, sua especialidade. “Eduquem-se os meninos e não será preciso castigar os homens”, escreveu o filósofo em suas memórias. A frase, estampada na entrada do prédio do Consórcio Intermunicipal de Promoção Social (Cips), se encaixa com perfeição no mundo contemporâneo passados 2.500 anos da morte do matemático.
Os cerca de 1.000 jovens que diariamente freqüentam as salas de aulas do Cips talvez ainda não tiveram a oportunidade de conhecer a fundo os pensamentos de Pitágoras, mas sabem que a educação é o caminho mais curto para conquistar o competitivo mercado de trabalho. A fórmula do grego é a injeção de ânimo que mantém em pé, há 45 anos, uma das mais antigas entidades de Bauru que forma jovens talentos para a vida.
Segundo seu presidente, João Carlos Previdello, dos cerca de 1.000 alunos abrigados no Cips, 800 estão com idade acima de 14 anos, dos quais 240 já estão empregados através da Lei do Aprendiz. Outros 560 aguardam uma chance do empresariado de Bauru para ter o seu primeiro emprego com registro em carteira.
Outros 200 jovens, na faixa etária de 12 a 14 anos, compõem o Núcleo Cultural da entidade e recebem noções de mercado de trabalho, participam de oficinas de artes e de reciclagem. Os garotos e garotas que já se encontram em condições de serem empregados recebem treinamento diário em sete cursos: almoxarifado, secretariado, telemarketing, eletricista residencial, holetaria, auxiliar administrativo/técnicas bancárias e informática. Eles são integrados aos cursos mediante a comprovação de matrícula escolar, ou seja, o Cips só aceita o jovem se ele estiver estudando regularmente.
Matriculados em um desses cursos, eles só serão liberados para o mercado de trabalho com no mínimo três meses de treinamento e cumprimento de atividades curriculares. A jornada escolar pode ser cumprida ou no período da manhã, quando os adolescentes são recebidos com café e, ao final do expediente, a alimentação é reforçada com um almoço, ou à tarde.
A lei número 10.097, conhecida como Lei do Aprendiz, diz que os estabelecimentos de qualquer natureza são obrigados a empregar e matricular nos cursos de aprendizagem um número de aprendizes, maiores de 14 anos e menores de 18 anos, equivalente a 5% do seu efetivo de trabalhadores, desde que as funções demandem formação profissional.
O adolescente aprendiz recebe registro na carteira de trabalho, assinado pelo Cips. Ele tem direito a todos os benefícios previstos na legislação trabalhista. O contrato, pré-determinado, é de no máximo 24 meses. Durante esse período, ele é obrigado a manter matrícula nos cursos oferecidos no Cips.
Sua remuneração é o salário mínimo. Para uma jornada máxima de oito horas, o salário é de R$ 300,00. O jovem é um funcionário da entidade prestando serviço na empresa que aderiu ao programa.
Perfil diferenciado
Com a aprovação da lei número 10.097, de dezembro de 2000, as entidades que abrigavam menores aprendizes enfrentaram uma crise devido ao temor e às dúvidas que o empresariado passou a ter em relação ao acordo, que teria de ser firmado para contratar os jovens. No Cips, não foi diferente. A entidade, porém, se reestruturou para enfrentar a nova realidade.
Seu atual presidente, João Carlos Previdello, garante que as empresas que contratam os jovens dificilmente os desligam após o vencimento do acordo trabalhista com o Cips. “Esses meninos e meninas ficam nessas empresas, crescem e viram exemplos de bons profissionais”, afirma.
Previdello acrescenta que, além de dar formação profissional aos adolescentes, eles ainda recebem tratamento odontológico, orientações fonoaudilógicas, psicológicas e de comportamento.
“Outra vantagem para o empresário é que vamos encaminhar a ele jovens que já sabemos quem são. Devido à convivência no dia-a-dia sabemos seu histórico familiar, seu potencial, suas preferências profissionais. E mais: o governo nos concede alguns benefícios referentes aos encargos sociais. Com isso, o menor aprendiz sai barato para o empresário.”
Fundado em 1945 pelo ex-prefeito Alcides Franciscato e por Roberto Previdello, o Cips ficou conhecido carinhosamente por “reco-reco”. Naquela época, os jovens trabalhavam na limpeza das ervas daninhas impregnadas nas calçadas, guias e sarjetas. O trabalho era executado com um pedaço de ferro que emitia o barulho de um reco-reco, conhecido instrumento de percussão.