08 de julho de 2026
Bairros

Emaranhado caótico

Sérgio Pais
| Tempo de leitura: 3 min

A correria do cotidiano de horas marcadas e implacáveis relógios de pontos talvez não permita ao cidadão que desce dos ônibus e caminha apressado pela região central da cidade uma observação mais cuidadosa sobre tudo o que está ao seu redor. E olha que não é pouca coisa!

É uma rica diversidade de “gentes” (caminhantes e errantes), arquiteturas variadas (esquecidas, restauradas ou simplesmente escondidas por fachadas) e um sem-número de elementos que se misturam e interagem, transformando aquela região em algo que, de certa forma, pode se resumir numa definição simplista de caos.

O JC nos Bairros foi ao Centro para exercitar esse tipo de observação, sem a pretensão de encontrar problemas e porquês. E, para não ampliar demais seu campo de visão - sob risco de turvar a imagem -, elegeu um dos elementos mais importantes e, literalmente, responsável pela pulsação daquele organismo vivo: o trânsito.

Assim como tudo por lá, o trânsito bauruense é pródigo em produzir, criar ou agregar novos elementos à paisagem demarcada por asfalto e concreto. Quem pensa que o trânsito é composto basicamente por carros, motos, ônibus e caminhões vai acabar se surpreendendo com um tranqüilo carroceiro que parece não se importar com a lentidão de seu veículo.

Ou então, talvez esqueça de contabilizar como “personagem do trânsito” todos os elementos que, cada um a seu jeito, acabam interferindo em toda uma dinâmica pré-estabelecida por suas rígidas leis.

São carrocinhas e carroceiros, sorveteiros e pipoqueiros, ciclistas e motociclistas, cadeirantes e skatistas, enfim, toda sorte de “gentes” que se deslocam sobre rodas. E para dar vida (ou dar a vida?) a todo este emaranhado de elementos, tem o pedestre, lógico, a principal vítima de todo esse caos. Ah!, tem também carros, ônibus e caminhões aos montes, mas estes, apesar de maioria, não contam (sempre estiveram lá...).

“Parece que os carros são intrusos, ninguém respeita os sinais”, diz o poeta e professor de literatura Luiz Vitor Martinello, que gosta de caminhar no Centro e, por isso, reivindica para os “seres andantes” a preferência na utilização daquele rico espaço urbano.

Aos olhos do poeta, o caos visual (e real) da região central transgride até mesmo a sua mais corriqueira definição: "grande confusão ou desordem", segundo o “Aurélio”. “Eu gosto desta efervescência, mostra que o local está cheio de vida”, arrisca Martinello.

O poeta vê ainda nesta caos poderes distintos e antagônicos. “O Centro é um grande mercado, onde cabe todo mundo e não exclui ninguém, por um lado, mas por outro discrimina. Ao mesmo tempo que tem agregação, tem segregação”, filosofa.

No trânsito, em especial, a divagação tem cabimento. Nos últimos tempos, e por razões diversas, vários diferentes (e novos) elementos acabaram sendo incluídos ao elenco principal dos atores do trânsito.

Mas esses “estrangeiros” ou “intrusos” sentem na pele a segregação, seja por andarem devagar demais, seja por pararem na contramão atrapalhando o tráfego, seja simplesmente por serem... diferentes. E aí, os conflitos (e os acidentes) se tornam inevitáveis.

Apesar disso, o caos do Centro inspirou Martinello, que num trecho de um poema escrito em 1983 descreve bem - e premonitoriamente - o que é a região atualmente: “E na rodrigues alves fords fuscas motoboys táxis civics disputam com os ônibus da emdurb espaços vagas passageiros o diabo! (é o atordoante futuro...”

Organização

Apesar do caos inspirar alguns, a sociedade tem se mobilizado para buscar soluções para amenizar os conflitos do trânsito. Afinal, o Brasil vem ostentando há tempos uma incômoda competitividade quando a disputa é de pessoas que morrem no trânsito.

Um fórum que acontece nesta semana, no Rio de Janeiro, sobre segurança no trânsito, aliás, propõe justamente discutir a interferência dos mais diversos elementos que integram o trânsito dos grandes centros urbanos.

Com certeza, pelo menos para a família de 12 pessoas em Bauru (número de vítimas fatais do trânsito na cidade só este ano), iniciativas como essa são válidas.