08 de julho de 2026
Bairros

‘Um outro trânsito é possível’

Sérgio Pais
| Tempo de leitura: 4 min

Mesmo diante dos caos que é o trânsito nos grandes centros urbanos e, principalmente, das trágicas estatísticas de acidentes fatais que mancham de sangue as páginas de jornais, o consultor em segurança de trânsito de uma montadora multinacional de caminhões, J. Pedro Corrêa, acredita que, com vontade política e organização, este problema pode ser amenizado. “Um outro trânsito é possível”, diz Corrêa, parodiando o lema do Fórum Social Mundial.

Segundo ele, todos os países que gozam de situação melhor que a do Brasil nesta questão tiveram problemas complicados de trânsito no passado. “O trânsito na Suécia, atualmente um exemplo para o mundo, era uma grande confusão nos anos 60, apesar da educação do povo. Mas, em 1967, o governo até alterou a mão de direção para dizer à sociedade que uma mudança radical era premente”, diz Corrêa, lembrando que, até então, os suecos adotavam o padrão inglês de volante no lado direito.

Corrêa cita ainda o exemplo dos Estados Unidos, que também viviam um trânsito complicado no período do pós-guerra. Segundo o consultor, quando o general Dwight D. Eisenhower saiu-se como o grande vencedor da 2.ª Guerra Mundial e depois se elegeu presidente (governou os EUA de 1953 a 1964), acabou descobrindo que morriam mais americanos nas estradas que nos campos de batalha.

“Ele (Eisenhower) precisou dar um murro na mesa e dizer que esta situação precisaria entrar nos eixos. Criou um comitê de segurança no trânsito, instalado ao lado do Salão Oval na Casa Branca, e, à custa de muitos bilhões de dólares, a situação começou a entrar nos eixos”, cita Corrêa.

Para o consultor, estes exemplos sustentam seu otimismo na possibilidade de mudança. “Os exemplos estão aí. Mas é preciso que alguém que tenha poder, ascendência moral sobre o País e, principalmente, liderança, diga que está na hora de dar um basta e inicie o processo. Depois, é preciso que a sociedade suporte esta idéia e que os trabalhos comecem”, diz.

Corrêa lembra ainda que, apesar de o tema “segurança no trânsito” não ser uma prioridade do governo nem da sociedade, as estatísticas demonstram que a situação vem melhorando nos últimos 15 anos.

Segundo ele, em 1986 ocorreram no Brasil 27 mil mortes “oficiais” no trânsito, número que os especialistas alegam ser subestimado - à época, estimava-se que para cada morte oficial havia outras duas não contabilizadas.

Em 2003, de acordo com os últimas dados oficiais disponíveis, esse número caiu para 20 mil mortes. Uma redução proporcionalmente considerável, se levado em conta o aumento populacional e o crescimento da frota de veículos e de habilitações.

“Mesmo sem organização e iniciativas decisivas, o Brasil já vem tendo avanços nesta batalha contra a violência no trânsito, mas não na intensidade e no ritmo que precisávamos. E se houve progresso com essas deficiências, isso vale dizer que se dermos uma organizada na questão vamos conseguir resultados melhores ainda”, defende.

Sobre a necessidade de pesados investimentos para se combater o problema, Corrêa é taxativo. “A principal iniciativa não custa um tostão: vontade política. Mas parece que até agora não há vontade, pois segurança no trânsito não vem sendo prioridade do governo e nem da própria sociedade. Apesar dos progressos, não se pode dizer que haja grandes movimentos no sentido de exigir das autoridades uma atitude mais incisiva”, avalia.

Apesar da agravante, segundo o consultor, de o Brasil não possuir “um povo educado”, pois lhe faltaria até educação de base, o problema “com certeza tem solução”. “Só que é um processo que leva tempo, de uma a duas gerações. Mas a mídia está muito mais ‘antenada’ e, agora, a sociedade está louca para começar a trabalhar”, garante.

Ação no bairro

J. Pedro Corrêa destaca que a mobilização em prol de um trânsito menos trágico pode começar no microcosmo dos bairros. “O cidadão brasileiro não mora no Brasil. Na verdade, ele mora no bairro, na rua tal, número tal. E as associações de moradores, quando não viram palanque de campanha para vereadores, podem ter papel decisivo no sentido de organizar a sociedade”, acredita.

Segundo o consultor, as associações de moradores ou condomínios podem, por exemplo, deflagrar campanhas simples de incentivo ao uso de cinto de segurança e respeito às leis ou algo do tipo “troque o peru do Natal por um par de pneus”. “É uma forma de começar a mudar, na base, a mentalidade do povo brasileiro. E, num universo menor, a chance de alcance desse tipo de iniciativa é maior”, ensina.