Apesar do aqüífero Guarani ficar localizado no subterrâneo, em profundidade que varia de 50 a 800 metros e em alguns locais até 1.800 metros, suas águas também correm riscos de contaminação. De acordo com o geólogo da Hidrogeo, Éric Muto, o Guarani é formado por camadas arenosas localizadas sob o basalto da Serra Geral, ficando, assim confinado.
Porém, há locais onde o aqüífero fica sem a proteção do basalto, onde aflora ou quando há acidentes geológicos, que são chamados de área de recarga. São nessas áreas que há o maior risco de contaminação. “Isso porque também são os locais onde a grande maioria dos poços está localizada, onde há o maior número de perfurações, e a possibilidade de contaminar é maiorâ€, diz.
Segundo Muto, poucas cidades fazem um gerenciamento do aqüífero, mas todas precisam da Licença de Perfuração, que é emitida pelo Departamento de Águas e Energia (Daee) de São Paulo. “Em Ribeirão Preto, eles fazem o acompanhamento porque a demanda é muito grande. Toda a cidade é abastecida pelo Guaraniâ€, conta.
Bauru também faz o gerenciamento dos poços, que abastecem 59% da população. De acordo com a assessora de imprensa do Departamento de Água e Esgoto (DAE), Sandra Faria, a cidade foi pioneira nacionalmente nessa linha. “Em 2000, contratamos uma empresa, a Waterloo, que fez o levantamento de dados do aqüífero e como vinha sendo explorado em Bauru. A partir daqueles dados, foi possível saber aonde deveríamos perfurar outros poços para o abastecimento da cidadeâ€, lembra Sandra.
Desde então, os poços profundos para abastecimento da cidade são monitorados pela autarquia. “O último que perfuramos está a quase 450 metros de profundidade e a bomba tem 250 metros.†Ela comenta que pelo estudo realizado a empresa observou que o aqüífero, na cidade, comportaria mais sete poços. “Desses, já perfuramos doisâ€, ressalta.
Sandra também observa que infelizmente muitos poços de particulares desativados não são lacrados. “As pessoas não sabem do risco de contaminação. Por desconhecimento, acabam contratando qualquer serviço para lacrar o poço, e nem sempre isso é feito de forma correta.â€
A movimentação do solo nos locais onde foi retirada grande quantidade de água pode provocar afundamentos. “Profissionalmente eu nunca vi um caso, mas isso pode ocorrer. Se uma matéria está ocupando um lugar e é retirada, ela vai se acomodar de alguma forma. Pode demorar bastante tempo, mas pode acontecerâ€, comenta Muto.
O professor José Galizia Tundisi, doutorado pela Universidade de São Paulo (USP) na área de recursos hídricos, durante sua palestra no Seminário “Aqüífero Guarani – Manejo sustentável e controle social†lembrou de um caso ocorrido na cidade de São Cristóvão, no México. “Eles fizeram um estudo simples e perfuraram um poço. Depois de um certo tempo, detectaram que as pessoas estavam contaminadas. A universidade fez uma pesquisa e descobriu que o poço subterrâneo tinha mobilizado um arsênico que estava parado. Ao se fazer a movimentação do aqüífero (na retirada da água), é possível movimentar outras substânciasâ€, acrescenta.
O vereador ambientalista Rodrigo Agostinho (PMDB) alerta para as várias formas de contaminação do aqüífero, principalmente pelo grande número de poços clandestinos. “Cada propriedade rural tem um poço, há muitos poços antigos desativados que nem sempre são lacrados. Agrotóxicos, fossas e principalmente o lixo são fontes de poluição das águas subterrâneasâ€, acrescenta Agostinho.
Tundisi também coloca o esgoto doméstico e o lixo como principais poluidores. Na seqüência vêm os nutrientes agrícolas e defensivos químicos, a extração de minério e poluentes de indústrias.
O tempo para a contaminação é mais difícil de ser apontado, pois pode ser bastante lenta, mas ocorre. “Por isso é necessário ter aterro sanitário, com o solo impermeabilizadoâ€, frisa.