08 de julho de 2026
Bairros

Cidade carece de ‘ilhas de conforto’

Sérgio Pais
| Tempo de leitura: 4 min

Em contraposição aos inúmeros pontos de elevação de temperatura existentes na cidade - as chamadas “ilhas de calor” -, existem também áreas que, por sua configuração ambiental, apresentam diferenças, a menor, nos termômetros. Mais que manter o clima interno mais ameno e agradável, essas áreas exercem influência à sua volta.

O problema é que essa influência só se efetiva no chamado entorno imediato, calculado pelos pesquisadores num raio de cerca de 100 metros, e os tais pontos são tão escassos na cidade que sequer podem ser levados em consideração para a função de “resfriar” as tais ilhas de calor.

A arquiteta Maria Solange Gurgel de Castro Fontes, 44 anos, estudiosa do Núcleo de Conforto Ambiental (Nucam) da Unesp-Bauru, comanda pesquisas que avaliam justamente o microclima de praças e bosques da cidade, buscando uma relação disso com o perfil de seus freqüentadores e o tipo de uso de tais espaços.

A conclusão dos levantamentos é taxativa ao apontar que os usuários não só se apropriam desses espaços, principalmente por seu microclima mais ameno, mas também que a utilização mais efetiva se concentra nos pontos mais “frescos” desse espaço. Por isso, Fontes se refere a esse tipo de local como “ilhas de conforto”.

Para comprovar a influência da arborização no clima de uma determinada área, a pesquisa comandada por Fontes fez levantamentos microclimáticos (temperatura e umidade relativa do ar e velocidade dos ventos) em áreas verdes como o Bosque da Comunidade e o Parque Vitória Régia e em seis praças (da Paz, Rui Barbosa, Portugal, Cerejeiras, República do Líbano e Luiz Zuiani).

O levantamento buscou caracterizar as áreas expostas à radiação solar direta e as áreas com sombreamentos ralo e denso. A pesquisa também realiza uma avaliação pós-ocupação, identificando aspectos positivos e negativos de cada espaço, o perfil das pessoas que o utilizam e seu grau de satisfação. O trabalho será apresentado no Encontro Nacional de Conforto no Ambiente Construído (Encac-2005), que será realizado de 5 a 7 de outubro em Maceió (AL).

Segundo a arquiteta relata em seu trabalho, “os resultados comprovaram a forte influência da arborização urbana na redução da temperatura, favorecendo condições microclimáticas mais agradáveis ao convívio humano”.

O estudo também comprova, segundo Fontes, que o processo de urbanização tem forte influência no clima local, já que em todas as praças foram registradas temperaturas maiores em relação ao entorno rural, na comparação com dados coletados junto ao Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet), da Unesp-Bauru.

Campeã de conforto

Dentre as praças analisadas, o melhor desempenho térmico foi observado no Bosque da Comunidade. Nas diversas medições realizadas, a área chegou a apresentar diferença de até 3,1ºC no período da tarde, entre sua área interna, caracterizada por sombreamento denso e entorno imediato (calçada).

Com base em questionários aplicados junto aos usuário, acrescenta Fontes, também ficou comprovado que os microclimas mais amenos do bosque contribuem para um melhor conforto térmico dos usuários e exerce grande poder de atração. “Realmente existe uma relação muito próxima entre microclima e a forma como os usuários apropriam-se desses espaços. Os (de temperatura) mais amenos são os mais procurados”, diz Fontes.

A arquiteta conta ainda que as diferenças entre a área interna do bosque e outras fora de seu raio de influência (100 metros) podem chegar até a 4ºC. “Essas constatações evidenciam a importância das áreas verdes na caracterização de variações climáticas significativas no ambiente urbano de Bauru. Vale ressaltar que as menores temperaturas do bosque geram pressões diferentes no meio urbano e contribuem para a criação de brisas locais mais amenas”, diz Fontes em sua pesquisa.

Por isso, sugere a estudiosa, o ideal para as cidades é que, ao invés da existência de um grande parque, existam vários pequenos bosques espalhados por sua área urbana. “Portanto, a conservação de áreas verdes em Bauru e a criação de outras, especialmente em espaços públicos abertos já consolidados, devem ser incentivadas pelo órgão de planejamento, com o fim de contribuir para a redução dos fenômenos adversos da urbanização, como as ilhas de calor”, aponta a arquiteta na conclusão de seu trabalho.

Fontes explica que o principal objetivo desses estudos é a criação de subsídios e de uma metodologia de intervenção projetual. “Apontamos uma série de aspectos que podem ser levados em conta no momento de requalificação de um espaço público no sentido de dar maior qualidade de vida ao local”, propõe.

Ela admite, porém, que até agora a pesquisa é “puramente acadêmica” e ainda não “extrapolou” o ambiente da universidade. “Estamos finalizando o trabalho e vamos divulgá-lo em congressos, para testar a metodologia. Depois, precisamos divulgar na cidade, para colocação em prática. Se não, fica muito científico”, completa.

A estudiosa acredita que o Nucam pode ser um importante parceiro do município, principalmente num momento como o atual em que se é elaborado o projeto do novo Plano Diretor. “Não apresentamos ainda (nossos estudos) para a administração municipal, mas o atual prefeito já sinalizou interesse em contribuições acadêmicas”, diz Fontes.