As primeiras impressões do público leigo que se depara com o conceito de “ilhas de calor” indicam a tendência de enxergá-las apenas nas grandes metrópoles, agrupamentos urbanos caracterizados por um grande adensamento de construções verticalizadas e intensa poluição.
De fato, essas condições favorecem o registro de aquecimentos climáticos diferenciados da média. Além disso, boa parte das pesquisas de campo, no Brasil e no Exterior, adotam esse cenário para a coleta de dados.
Mas uma pesquisa comandada pelo engenheiro João Roberto Gomes de Faria, um dos integrantes do Núcleo de Conforto Ambiental (Nucam) da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac) da Unesp-Bauru, comprova que, por incrível que possa parecer, as ilhas de calor também surgem em bairros novos, na periferia das cidades, principalmente os de interesse social, como núcleos habitacionais.
Segundo ele, o fenômeno acaba favorecido por diretrizes equivocadas na metodologia de construção deste tipo de conjunto. O engenheiro explica que, geralmente, os projetos de grandes núcleos habitacionais adotam o procedimento inicial que ele classifica como “arrasa quarteirão”.
“Para começar a construção, primeiro os empreendedores derrubam toda a vegetação na área que abrigará as casas, deixando tudo plano e desmatado. Daí para se criar áreas verdes nestes locais é necessário esperar o ciclo de crescimento de uma árvore, que dura pelo menos dez anos para atingir um tamanho significativo”, explica.
Além disso, contribui para que ilhas de calor se formem nestes locais o fato de que, em conjuntos habitacionais de interesse social, em Bauru localizados em sua maioria a nordeste e a sudeste da área urbana, apresentam-se como enormes manchas homogêneas de grande densidade de edificações.
Na verdade, segundo Faria, o padrão de quadras nesses conjuntos é totalmente diferente do padrão de quadras do Centro e de bairros mais antigos. “Neles, os lotes são pequenos e há uma ausência quase total de vazios. As construções são levadas a todos os limites do lote e a quantidade de vegetação no interior das quadras praticamente desaparece”, descreve.
Segundo o estudioso, o problema das ilhas de calor seria minimizado se núcleos habitacionais fossem construídos com um planejamento que preservasse um mínimo de arborização nas ruas. “O ar que circula pelas ruas transporta ar quente, que seria resfriado ao passar por uma região arborizada”, diz, apontando uma rua do núcleo Nova Bauru, na região norte de Bauru.
Segundo ele, a situação nesse local só não é tão sentida porque o bairro está localizado num ponto bastante alto da cidade, o que garante uma boa ventilação e, por conseqüência, um certo conforto ambiental.
O mesmo “alívio” não acontece no Centro da cidade, uma outra ilha de calor. Lá, contribuem para o fenômeno a intensa verticalização das construções, o altíssimo índice de impermeabilização do solo, a poluição dos veículos e a quase total ausência de vegetação.
Além disso, acrescenta Faria, no Centro a velocidade do vento, devido à grande quantidade de obstáculos existentes, cai para quase um terço da registrada em regiões altas, como no núcleo Nova Bauru. “Por isso, o efeito do ar quente que sai do solo é mais sentido em regiões como o Centro”, explica.
Segundo o estudo, bairros mais antigos têm menos chances de gerar ilhas de calor. Segundo Faria, nesses locais os lotes são maiores, com casas mais espaçadas, além de quintais e ruas com arborização. “A circulação de ar é maior e, com a vegetação, seu resfriamento também”, atesta, destacando apenas que, por questões de segurança, muitos moradores de bairros antigos vêm erguendo os muros a alturas prejudicias à ventilação.
Prédios “amigos”
Apesar do fenômeno das ilhas de calor ser bastante acentuado em concentrações urbanas marcadas pela verticalização, em Bauru esta relação não seria tão evidente. Segundo o estudioso do Nucam, além das sombras que grandes prédios proporcionam, com o conseqüente resfriamento da área em que ela se projeta, existem outros parâmetros para se medir a influência da verticalização.
Um deles é seu tamanho. A arquiteta Léa Cristina Lucas de Souza, também integrante Nucam, diz que obras mais baixas permitem maior dissipação do calor armazenado entre os edifícios, reduzindo os focos de aquecimento.
Outro fator é a influência do fator de visão do céu - ou sky view factor (SVF). “Ao contrário do que acontece em muitas cidades onde a verticalização ocorre apenas no Centro, Bauru tem um processo bastante espalhado. E isso é bom”, diz Faria.
Um dos trabalhos desenvolvidos no Nucam é justamente um software que permite calcular a área visível do céu como indicador de qualidade de vida. “Quanto maior o espaço visível do céu, maior será o arejamento das áreas intra-urbanas”, afirmou Souza em artigo publicado no Jornal da Unesp. Por sua significação social, o trabalho da arquiteta recebeu em 2003 uma premiação internacional no Japão.