09 de julho de 2026
Cultura

Sobre mundos: Corpo e alma

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Já haviam se passado vários meses sem chuva naquela região. Motivado pela própria comunidade do vilarejo, o padre resolveu organizar uma procissão pedindo a Deus que fizesse chover sobre os sítios daquele lugar. No dia marcado, todos os moradores do vilarejo e sitiantes da região levantaram bem cedo e se reuniram na praça central da pequena cidade. Com certa decepção no rosto, o padre iniciou a celebração dizendo: “A falta de fé de vocês, queridos irmãos e irmãs, é um escândalo! Nós estamos aqui para fazer uma celebração especial pedindo a Deus que nos mande chuva depois de tanto tempo de seca. E o que eu vejo? Ninguém de vocês trouxe um único guarda chuva se quer para poder voltar para a casa!” Um velho sitiante que se encontrava no meio da multidão, porém, respondeu em alta voz: “Padre, se chover hoje, ninguém vai querer usar guarda-chuvas!”

Existe uma grande diferença entre o fogo que queima uma mata ou a ventania que derruba árvores e um homem que desmata uma determinada região. Ambas ações provocam mudanças. Porém, a ação humana não se reduz ao movimento do agir. Este possui sua origem em uma intenção. Em outras palavras, a ação humana, por mais estúpida que seja, se constitui em uma ação pensada. Enquanto que a ação da natureza somente transforma a realidade, a ação humana é sempre uma fusão entre teoria e prática. Por isso podemos dizer que a ação humana é sempre duplamente transformadora. Em outras palavras, ela transforma a realidade, como também o próprio homem. No agir humano existe sempre um “fazer” e um “se fazer”. “Nosso caráter é resultado de nossa conduta” (Aristóteles).

Afinal, o homem possui intenções, ou seja, uma teoria, e a partir de sua ação suas convicções são comprovadas, satisfeitas, reforçadas ou reprovadas, frustradas e reformuladas, dependendo dos resultados da realização de seu agir. O homem se define através da ação. “Primeiro fazemos nossos hábitos, depois nossos hábitos nos fazem” (John Dryden).

Se por um lado o homem só se faz à medida que faz, ele só faz realmente à medida que se faz. Em outras palavras, o homem se constrói, se define ao agir, mas ele somente possui uma ação autenticamente sua quando pensa, raciocina e reflete sobre aquilo que pretende fazer. A ação deixa de ser animal e passa a ser humana, quando é antecipada ou acompanhada de raciocínio.

Afinal, raciocinar é a característica que difere o ser humano de outros seres vivos em nosso planeta. Desta forma, o nosso ser não está no simples discurso e muito menos na simples prática. Um discurso que não possui um agir não passa de pura decoração. Muitas vezes, um belo discurso é uma forma eficiente de nos iludir de que algo está sendo feito e transformado em nossa realidade. Por um outro lado, a simples prática não só é insuficiente, mas também perigosa. A pura prática, o agir não pensado sem uma teoria sólida, mesmo que seja uma boa prática, geralmente não possui permanência, constância, continuidade. Uma prática sem teoria pode também facilmente sofrer influências que venham desviar seus rumos. “As palavras formam os fios com os quais tecemos nossas experiências” (Aldous Huxley).

O grande desafio do ser humano é deixar de ser um teórico maquiador ilusionista de sua omissão e um ativista sem auto-análise que se preenche de atividades para não ter que pensar. O desafio do homem é desenvolver aquilo que chamamos de uma verdadeira práxis. Por práxis entendemos a constante interação entre teoria e a prática. A práxis é desenvolvida quando adotamos o hábito de refletir sobre nossa vida, estabelecer nossos objetivos e agir de forma coerente com eles. Mas devemos, ao mesmo tempo, deixar que o agir nos ensine algo de novo.

Em outras palavras, entender a realidade como uma escola e estar aberto para inserir algo de novo em nossa teoria. A práxis não só faz o movimento do pensamento para a ação, mas nos capacita a voltarmos a refletir livremente sobre nossas ações, revisando não somente nossa prática, mas também nossos conceitos, nossa teoria. Quem deseja viver de forma coerente e consciente com aquilo que pensa e faz necessita desenvolver uma práxis. Algo que deve ser iniciado imediatamente, mas que somente com o tempo pode se tornar uma verdadeira postura de vida. “A gente não se liberta de um hábito atirando-o pela janela: é preciso fazê-lo descer a escada, degrau por degrau” (Mark Twain). O fundamental é que possamos sair da teoria e buscarmos na prática a realização do que gostaríamos de ser e do mundo que sonhamos. Esta é a lição básica do livro sagrado dos cristãos, a Bíblia. Viver é a síntese entre corpo e alma. “No princípio era o Verbo...e o Verbo se fez carne” (Jo 1, 1,14).