A paralisação, ontem, dos estudantes do câmpus de Bauru da Universidade Estadual Paulista (Unesp) atingiu parcialmente o objetivo de chamar a atenção para os problemas financeiros da universidade. A mobilização pretendia causar grande repercussão interditando uma pista da rodovia Marechal Rondon. Entretanto, o bloqueio virou apenas uma passeata pelas principais vias da cidade. Os professores decidiram em assembléia, ontem, fazer uma paralisação de hoje até segunda-feira.
Os alunos, em solidariedade aos funcionários que anteontem decidiram pela paralisação, protestaram contra o veto do governador Geraldo Alckmin (PSDB) ao aumento de 0,43% no repasse de verbas do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) para as universidades públicas paulistas. A mobilização estudantil era uma forma de pressionar os deputados estaduais para, na sessão de ontem, derrubar o veto ao aumento de recursos previsto na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) 2006, aprovada pelos próprios parlamentares.
Porém, o veto não chegou a ser votado e nem discutido mesmo com a pressão de cerca de 1.500 professores, funcionários e alunos das três universidades estaduais que lotaram o plenário da Assembléia Legislativa, ontem. Os deputados governistas não apareceram e, portanto, não houve quórum para aprovar a inversão da pauta do dia, o que poria a questão do veto em votação. A LDO previa que a Unesp, a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) dividissem 10% do montante recolhido pelo Estado via ICMS. Atualmente, o percentual rateado entre as três universidades estaduais é de 9,57%.
Sob o protesto de ontem, a secretária-geral do Diretório Central dos Estudantes (DCE-Bauru), Juliana Oliveira Leitão, avalia que bloquear a Rondon certamente seria muito mais impactante.
“De qualquer forma, a mobilização que a gente fez em Bauru também vai ter uma repercussão. Não tanto quanto se parasse a rodovia. Isso faria com que boa parte do Estado ficasse sabendo que estava tendo bloqueio na rodovia e manifestação de estudantes”, lamenta.
Apesar de não parar a Rondon, a representante estudantil entende que o saldo da mobilização é positivo. Ela, que integra também a União Estadual dos Estudantes (UEE), argumenta que o tema de veto para os recursos era avaliado pelos dirigentes estudantis como fraco para sensibilizar os universitários. “A gente conseguiu mobilizar os estudantes, o que não estávamos conseguindo há muito tempo. Isso foi um passo muito grande”, comemora.
Erro de estratégia
Diferente do ímpeto de mobilizações de outros movimentos sociais, como o Movimento Sem-Terra (MST), os cerca de 170 estudantes, ao chegarem na beira da rodovia, não adentraram de imediato na pista. Iniciaram negociações com o comando da Polícia Militar. Depois que várias viaturas da PM chegaram ao local, os estudantes ficaram concentrados na via marginal à rodovia, na esquina das ruas Antônio Francisco Lisboa e Sérgio Arcângelo.
Num determinado momento, os coordenadores do movimento não se entendiam pelo bloqueio ou simplesmente pelo início de uma passeata. A consulta aos manifestantes demonstrava claramente que a preferência era pela interdição. A estudante do primeiro ano de relações públicas Marcela Cicconi Barbin comentou que parar a Rondon daria muito mais repercussão nacional. “É difícil mobilizar um grupo tão grande de estudantes. As pessoas perdem a fé”, argumenta.
Depois de muita conversa sob forte sol das 12h, os estudantes saíram em passeata pelo gramado da rodovia escoltados pela polícia. Cantando palavras de ordem, tocando tambor, apitando e fazendo barulho com matracas, adentraram à avenida Nações Unidas sob o viaduto da Rondon em direção ao Centro da cidade. Ocupando a pista bairro-Centro, eles passaram pelo viaduto da avenida Duque de Caxias. A passeata ganhou o reforço de um caminhão de som cedido por um sindicato e atrapalhou o trânsito em uma das pistas.
O grupo de universitários entrou pela avenida Rodrigues Alves até a altura da Câmara Municipal de Bauru. As grades do Legislativo Municipal serviram de varal para fixação de faixas e cartazes dos manifestantes que encerraram a mobilização.
A passeata não agradou o comerciante Guilherme Guedes, que reclamou do barulho. De dentro do seu estabelecimento, na esquina da rua Rio Branco com a avenida Rodrigues Alves, ele viu a passagem dos jovens estudantes sem entender muito o que acontecia. “Criou um congestionamento e o acúmulo de guardas num só local”, protesta.