09 de julho de 2026
Política

Morelli critica centralização de Roma

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 3 min

O bispo dom Mauro Morelli, que até junho comandou a Diocese de Duque de Caxias (RJ) e hoje preside o Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável do Estado de São Paulo (Consea), é um crítico do processo de escolha de bispos determinado pela Cúria Romana, sediada no Vaticano. Ele defende que a Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB) participe da indicação através de uma comissão episcopal com poderes na definição de critérios e na escolha dos nomes.

Os ritos atuais excluem a CNBB da escolha do religioso que comandará uma diocese da Igreja Católica. A Nunciatura Apostólica, que tem status de embaixada do Vaticano no Brasil, envia um questionário, em caráter sigiloso, a bispos, padres, religiosas e líderes leigos pedindo a sugestão de nomes. De volta à Nunciatura, os indicados são pesquisados.

Segue para Roma uma lista com apenas três nomes, que são avaliadas pela Congregação dos Cardeais, responsável pela escolha de uma indicação. O papa Bento XVI, cumprindo ato burocrático, apenas ratifica o nome determinado pela congregação.

“Hoje você tem nas mãos de um homem, de uma única estrutura (Nunciatura Apostólica), algo que é a vida para a Igreja Católica no País”, avalia dom Mauro. Ele lembra que o núncio apostólico, que atua como embaixador do Vaticano em Brasília, dificilmente conhece a realidade do Brasil e suas particularidades.

“Ele não conhece a cultura do País. O Brasil é muito grande”, justifica. Dom Mauro, classificado informalmente pelo Vaticano como um bispo polêmico, diz não ter dúvidas de que as decisões na Igreja Católica são motivadas pela fé. “Mas elas são trabalhadas, moldadas, pelas conjunturas culturais, sociais e políticas. Há uma carga ideológica por traz de nossas escolhas”, analisa.

Na opinião dele, a CNBB poderia atuar como uma “grande moderadora” no processo de escolha dos bispos. “Haveria um processo de escuta à Igreja Católica local. Também não deixaria (o processo) fechado a uma única diocese. É preciso criar caminhos, um processo dialogante com a realidade da diocese. É preciso discutir qual é o tipo de pastor que ela precisa. Hoje se busca uma diocese para um bispo. Deveria ser o contrário: é preciso buscar um bispo para uma diocese”, afirma.

O religioso insiste que a escolha de bispos deve ser alterada. “O núncio apostólico é a autoridade maior para coordenar o processo, afiná-lo e encaminhá-lo para Roma com os nomes apurados. É um modelo, na minha opinião, que tem de ser diferente.”

Dom Mauro busca na história da Igreja Católica os argumentos que sustentam sua tese. Ele lembra que nos primeiros 600 anos depois de Cristo os bispos eram eleitos pela comunidade. “O clero elegia os bispos e os apresentava ao povo. Se o povo não aplaudisse, ocorria uma nova eleição. Essa era uma praxe que se sustentou até o sexto século. Não acho que hoje deve ser implementada essa modalidade, mas é preciso discutir melhor a escolha dos bispos”, sugere.

O religioso conta que sua sugestão foi apresentada durante uma reunião privativa da CNBB com o prefeito da Congregação dos Bispos. “Isso causou nele um mal-estar muito grande. Mas acho que nós não devemos nos cercear e muito menos não ter coragem de discutir aquilo que é preciso”, prega.

Na opinião de Morelli, os bispos precisam recuperar o seu espaço conquistado ao longo dos séculos na tradição católica. “Bispo é moderador, pastor da igreja local.” Ele critica a centralização exagerada do poder na Cúria Romana. “Ela intervém demais. Se analisarmos a história da Igreja Católica no Brasil, percebe-se uma clara intervenção da Cúria Romana no País”, aponta.