09 de julho de 2026
Polícia

Crimes insolúveis nutrem imaginário

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 4 min

Qualquer lugar do mundo tem seus mistérios. Alguns se desvendam com o passar dos anos. Outros, continuam sem solução e ganham vida no imaginário popular. Distante milhares de quilômetros do fog londrino e das lentes do detetive inglês Sherlok Holmes, Bauru também tem cenários e personagens de casos policiais que compõem enredos ainda indecifráveis.

Justamente por não terem fim, apenas os componentes do começo e do meio, alguns fatos registrados na cidade aos longos dos últimos 30 anos sobrevivem a comentários. Sem solução, dificilmente vão cair no esquecimento da população. No que diz respeito à condenação de possíveis culpados, o tempo, apoiado pela legislação, prescreve os atos de punição.

O assassinato da menina Mara Lúcia Vieira, cujo corpo foi localizado no dia 15 de novembro de 1971, é o caso mais famoso que figura na lista de crimes insolúveis da cidade. O titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), J.J. Cardia, lembra que o inquérito instaurado para apurar a morte da garota não elucidou a autoria do crime.

As circunstâncias trágicas de sua morte aliada à inocência de sua idade, 9 anos, comoveu a população. Seu túmulo, no Cemitério da Saudade, é um dos mais visitados no Feriado de Finados e também no transcorrer do ano. “Mesmo que se identifique o autor, ele não poderá ser mais processado porque o crime está prescrito”, observa Cardia.

Outro assassinato que também marcou Bauru no início dos anos 70 foi o do policial militar Moacir Chermont, morto em situação misteriosa na Vila Dutra. Segundo Cardia, a perua Kombi do PM foi cercada por marginais com o intuito de praticar o furto.

“Ele reagiu e acabou sendo morto com um tiro. Naquela época, as investigações foram bastante tumultuadas. Alguns nomes de suspeitos foram levantados. Houve até a prisão de um, mas o assassinato não ficou totalmente esclarecido”, conta.

Ainda nos conturbados anos da década de 70, Bauru registrou mais um caso de possível homicídio que entrou para a lista dos insolúveis. Figura bastante conhecida dos comerciantes e freqüentadores do Centro da cidade, Pelezinho tinha fama de aterrorizador. Seu nome até hoje é uma incógnita. Sua idade também era desconhecida.

Facilmente reconhecido devido a um defeito físico, ele viveu apor alguns anos no abrigo da Sociedade Beneficente Cristã, o Paiva. “Era um rapaz de cor. Foi criado no Paiva e depois de adulto saiu para a rua. Havia uma cantina no Centro, que chamava-se Mil e Um, onde ele residia no quartinho de fundo. Devido ao defeito físico, Pelezinho andava todo torto, assustando as crianças e as moças. Era um sujeito folclórico”, arremata o delegado.

Segundo relato de outras pessoas que conheceram Pelezinho, uma de suas peculiaridades era arrumar encrenca com a polícia. “Bastava ele ver um policial para armar a maior confusão”, conta um comerciante do Centro que preferiu não se identificar. Num jogo entre o Esporte Clube Noroeste e Santos, no Estádio Alfredo de Castilho, Pelezinho se atracou com vários policiais. “Sumiu sem deixar vestígios. Provavelmente foi morto”, complementa o lojista.

No início de 1989, o jornalista Luiz Alberto Montenegro Rodrigues foi assassinado com dois tiros. Seu corpo foi localizado dentro de um Volkswagen Voyage, nas proximidades do Estádio Alfredo de Castilho, na Vila Industrial. As investigações levaram a um suspeito, mas as provas não foram suficientes para incriminá-lo. Passados 16 anos, não há sinais do autor ou autores do crime.

Outro caso, mais recente, também é alvo de comentários. Envolve o desaparecimento do empresário Nelson Olyntho Machado, em agosto de 2002. De acordo com o que consta no processo, Olyntho teria sido visto pela última vez entrando em um carro com os acusados do crime.

Um deles, Marcelo Gabriel Ferreira, confessou que seqüestrou o empresário e acompanhou seu espancamento por outros dois comparsas. Ferreira diz que ouviu de um de seus companheiros que Olyntho seria enterrado em uma cova já aberta na zona rural de Agudos. Mas até hoje seu corpo não foi encontrado.

Dos três acusados do crime, Fabiano Aparecido Cardoso já foi condenado a 16 anos de prisão.

No dia 13 de dezembro deste ano será a vez de Marcelo Gabriel Ferreira e Reinaldo Pereira de Brito enfrentarem o júri popular. Brito era casado com a irmã do empresário. O casal teria enfrentado momentos de turbulência na relação e Olyntho ajudou a irmã a sair de Bauru.“Esse caso está solucionado, mas não exaurido porque o corpo não foi localizado”, explica Cardia.