Angicos - No momento em que enfrenta uma queda de popularidade e vê o governo federal diante de sua pior crise política, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem, em Angicos (RN), que sempre “apanhou” muito pelo fato de não ser um político de “duas caras”. E pediu à população para não esperar dele um presidente que sai de palanque em palanque contando “promessas” e “mentiras”.
As declarações ocorreram em discurso de 42 minutos, diante de cerca de 3 mil alunos, jovens e adultos do Rio Grande do Norte, recém-formados pelo programa Brasil Alfabetizado. “Eu apanhei muito neste País. Apanhei muito neste País por não querer ser um político de duas caras, aquele que chegava ao Ceará e falava ser favorável à transposição do rio São Francisco, chegava ao Rio Grande do Norte e dizia ser favorável, em Sergipe dizia não ter uma posição definida e chegava à Bahia e dizia ser contra”, afirmou o presidente, em fala de improviso, arrancando aplausos dos presentes.
Mais tarde, voltou ao tema, desta vez com o gancho da construção de uma refinaria de petróleo no Nordeste. Pernambuco e Rio Grande do Norte travam um duelo nos bastidores para receber as obras. “Eu não vou chegar em cada palanque e contar uma promessa e uma mentira. Não esperem, não esperem, até porque, quando eu deixar a Presidência, vocês farão parte dos companheiros que eu vou continuar encontrando neste País afora.”
Usando um boné branco do evento, o presidente demonstrou irritação com as seguidas vaias dos presentes a alguns políticos locais presentes, como os senadores Fernando Bezerra (PTB) e Garibaldi Alves (PMDB) e a governadora Wilma de Faria (PSB), que, ao discursar, disse que Lula “vai conseguir sair dessa crise como um grande vitorioso por ser um homem honesto”.
Lula, que cancelou visitas a Natal e Belo Horizonte (previstas para anteontem e hoje respectivamente), aproveitou o início de sua fala para demonstrar sua insatisfação com as vaias. “Não tem nada mais desagradável para mim, como presidente da República, de vir a uma festa que não é nossa, não é de nenhum partido, não é de nenhuma religião, mas é do povo mais humilde desse País. E as autoridades que venham participar, seja do PT ou não, sejam vaiadas. É que nós precisamos aprender a distinguir quando a gente está numa manifestação política ou quando a gente está num ato como esse.”
Durante o evento, Lula entregou diplomas a cerca de 20 alunos formados pelo programa de alfabetização do governo federal. Entre eles, a agricultora Maria Leonor Freitas do Nascimento, de 103 anos. Ela abraçou o presidente, cumprimentou os ministros e foi aplaudida. No palanque, bem-humorado, Lula distribuiu autógrafos e ganhou um par de chinelos de couro de presente.