Tendo em vista os acontecimentos do último dia 17, envolvendo dois membros do Instituto Ambiental Vidágua, esta organização vem a público esclarecer alguns pontos que nos parecem relevantes. Neste dia, o biólogo Ivan Alexandre Ferrazoli de Marche, secretário executivo do Vidágua, e o ambientalista Rodrigo Antonio de Agostinho Mendonça, conselheiro da instituição, estiveram em área próxima ao Córrego Água da Ressaca, onde ocorria desmatamento para fins de loteamento, com o objetivo de verificar o cumprimento da legislação ambiental quanto à conservação da Reserva Legal. Na ocasião, foi detectada a presença de importantes espécies vegetais (bromélias) já em processo de senescência (ou seja, haviam sido retiradas do solo no processo de desmatamento e fatalmente iriam morrer), fato que motivou o seu resgate e o encaminhamento ao Jardim Botânico de Bauru.
Cabe aqui contextualizar a situação em que se encontra o Cerrado, bioma existente no local. O Cerrado, segundo maior bioma em extensão geográfica do Brasil, ocupava mais de 200 milhões de hectares do território nacional (ou seja, 25%). Hoje resta apenas cerca de 14% da área original, sendo que no Estado de São Paulo a situação é alarmante! Somente 1% da área natural está preservada. Fato mais grave é a ausência de legislação específica que proteja este bioma, tão rico em biodiversidade: 837 espécies de aves, 161 espécies de mamíferos, 150 espécies de anfíbios, 120 de répteis, um terço da biota brasileira e 5% da fauna e flora do mundo!
Neste sentido, o Vidágua vem desenvolvendo o projeto “Estratégias de conservação para o Cerrado paulista a partir da mobilização da sociedade civil”, em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, que visa integrar a população na defesa do bioma. Entre as ações já desenvolvidas no projeto, podemos citar a elaboração de um documento de estratégias com a participação de mais de 40 representantes de organizações não governamentais e instituições de pesquisa, onde o tema conservação foi destaque, o que evidencia a demanda por atitudes urgentes para salvar os remanescentes. Além disso, o decreto nº 5.092/04, do Ministério do Meio Ambiente, estabeleceu áreas prioritárias de conservação, incluindo a área em questão.
Foi pensando nisso que os membros do Vidágua, especialistas no assunto e conhecedores daquela área em especial, se dirigiram até o local para única e exclusivamente cumprir o que preceitua o artigo 225 da Constituição Federal: defender e preservar o meio ambiente para as presentes e futuras gerações. Salvar espécies de um bioma em extinção para fins de pesquisa, sem nenhum cunho comercial, não nos parece um delito, mas sim uma obrigação de todo cidadão. Para o Vidágua, a maior vítima desta situação é o Cerrado, que continua sendo destruído. Se este modelo de desenvolvimento a qualquer custo persistir, fatalmente a próxima geração NÃO conhecerá o Cerrado. Não será esta intimidação que interromperá o nosso trabalho.
Secretaria Executiva e Conselho Diretor do Instituto Ambiental Vidágua