São Paulo - Pegue todas as espécies de mamíferos, aves, répteis, anfíbios, peixes e insetos conhecidos da Amazônia. Agora triture tudo e tente encaixar o que sobrou dentro de um pacotinho de açúcar. Só assim, talvez, seja possível ter uma idéia - ainda que muito distante - da biodiversidade de microrganismos que podem ser encontrados em um único grama de solo: 1 milhão de espécies de bactéria, segundo um estudo publicado hoje na revista “Science”.
Até recentemente, acreditava-se que esse número era de “apenas” 10 mil espécies por grama de solo - um paradigma estabelecido em 1990 por um grupo de pesquisa alemão. Agora, cientistas do Laboratório Nacional de Los Álamos (LANL), nos Estados Unidos, chegaram a um número ainda mais impressionante.
A partir de novas metodologias computacionais, eles reavaliaram os dados da equipe alemã e chegaram a um número pelo menos cem vezes maior: 1 milhão de espécies de bactérias por grama de solo. “É uma floresta tropical inteira na palma da sua mão”, diz o pesquisador Tom Schmidt, especialista em microbiologia de solos da Universidade do Estado de Michigan (MSU).
Na verdade, muito mais do que isso: o número de espécies conhecidas de vertebrados e invertebrados no Brasil inteiro gira em torno de 150 mil, segundo algumas estimativas.
As comparações podem ir ainda mais longe: o número de micróbios em 1 tonelada de solo, de acordo com os novos cálculos, é maior do que o número de estrelas na Via-Láctea. “A exploração da diversidade microbiana está se tornando mais parecida com a exploração do espaço, na qual o solo represente a ‘última fronteira’, habitada por um universo microbiano largamente desconhecido”, escrevem os pesquisadores Tom Curtis e W. T. Sloan, em um artigo publicado com o estudo na Science.
Calcular números de espécies é sempre complicado, especialmente para microrganismos. As bactérias são, de longe, o grupo de organismos mais diversificado do planeta. Mas ninguém sabe dizer ao certo quantas espécies existem. “Essa é justamente uma das grandes perguntas pendentes”, disse o pesquisador John Dunbar, que coordenou o estudo no LANL. “Não dá nem para dar um chute.” A estimativa para 1 grama de solo serve como um indicador. A amostra inicial foi tirada de um campo agrícola na Alemanha, mas a biodiversidade microbiana certamente varia de um solo para outro.
O mais importante do estudo, segundo os pesquisadores, foi a metodologia estabelecida para chegar ao resultado de 1 milhão. Antes, os cientistas defendiam que o número de bactérias de cada espécie na amostra era basicamente o mesmo. O novo cálculo, entretanto, considera que a quantidade de indivíduos varia entre cada espécie.
Para fazer o estudo não foi preciso - nem seria possível - cultivar todas essas bactérias. A estimativa é feita a partir de análises da divisão e recombinação do DNA presente na amostra. “Finalmente temos um método eficiente para calcular diversidade bacteriana”, afirma Dunbar. Segundo ele, trata-se de uma ferramenta importante para estudar o impacto de atividades humanas sobre a biodiversidade dos solos, incluindo mudanças climáticas, poluição e erosão.