09 de julho de 2026
Articulistas

O País da hipocrisia


| Tempo de leitura: 3 min

Como você, caro leitor, certamente imaginou, refiro-me ao Irã. Este país de confissão muçulmana e que segue os ditames da seita xiita, deveria se abster de bebidas alcoólicas, do uso de aparelhos elétricos e eletrônicos para a reprodução de imagens e sons, as pessoas não deveriam se preocupar com o aspecto físico. O recato sexual também seria um preceito importante. A realidade aponta em outra direção: apesar de estritamente proibido, o álcool é facilmente encontrado, seja em virtude do contrabando, seja porque muitas pessoas possuem suas próprias destilarias caseiras. Nas freqüentes festas, não faltam nem bebidas, nem música para dançar. Igualmente proibidas, as antenas parabólicas são encontradas em 30% das casas de Teerã, capital do país.

Jovens funcionárias públicas utilizam luvas no trabalho, para esconder que pintam as unhas. Não é incomum encontrarmos mulheres (e alguns homens também) exibindo orgulhosos curativos no nariz. Isto indica a ação de algum cirurgião plástico, que cobrou algo equivalente a US$ 1.000,00 para reduzir esta parte do corpo que, em algum momento do passado, deu fama ao compositor Juca Chaves. Mocinhas, pagando preço equivalente, restauram hímens às vésperas do casamento.

Por falar em casamentos, as leis iranianas permitem a poligamia e o casamento temporário. As pessoas podem fazer um contrato nupcial com prazo de validade de algumas horas, o que é uma máscara para a prostituição, muitas vezes, gerenciada pelo pai da moça que está se “casando”. O governo iraniano admite a existência de um milhão de drogados, que se viciam em ópio. O número real deve ser três vezes superior.

A corrupção governamental tem dimensões quase brasileiras. E ela se estende aos líderes religiosos como o poderoso mulá Rafsanjani. Aos 71 anos, ele dirige o Conselho das Conveniências do Sistema (que, de acordo com a Constituição, arbitra as disputas entre o Parlamento e o Conselho dos Guardiães e funciona como um órgão de planejamento do Estado). Um de seus filhos é o presidente do metrô de Teerã; outro dirige a companhia de gás; sua fortuna anda perto de US$ 1 bilhão. O que estes líderes religiosos fizeram com a economia do país, após a revolução islâmica, que derrubou a ditadura de Mohamed Rheza Pahlevi, em 1980? O Irã, grande exportador mundial de petróleo, importa gasolina do Brasil; o PIB per capita anda em torno de US$ 2.000,00, o que é 30% menos do que antes da chegada de Kholmeini ao poder; o desemprego supera 20% da população economicamente ativa; e a inflação anda em torno de 15%.

O Líder Supremo do Irã é, de acordo com a Constituição, um clérigo Xiita. Ele nomeia seis outros clérigos para integrar o Conselho de Guardiães, composto por 12 pessoas. O tal Conselho pode vetar leis aprovadas pelos parlamentares e barrar candidatos à presidência e demais cargos públicos. Os Guardiães dirigem a “Voz e Visão”, que comanda todas as emissoras de rádio e televisão, que são estatais. Esta descrição do Irã é minha modesta contribuição para que o ex-comissário do povo José Dirceu possa encontrar um exílio político condizente com suas vocações intelectuais. Boa viagem!

O autor, Ney Vilela, é professor de história e mestrando em comunicação social