08 de julho de 2026
Articulistas

Independência?


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Em desfiles cívicos, o Brasil lembra hoje (seria otimismo demais dizer “comemora”) o dia em que passou a ser “independente” de Portugal. “Independência ou morte!”, bradou Dom Pedro 1º às margens do Rio Ipiranga, conforme nos conta a velha historiografia dos grandes heróis da pátria amada, salve, salve!

Neste ano, o dia da independência acontece em meio a um dos mais escancarados lodaçais da história política deste País (não dá para dizer que é o maior, já que a história dos pântanos palacianos remonta às Capitanias Hereditárias). Mas, há um ingrediente novo: está atolado no lodaçal o partido que sempre fuzilou a corrupção. Ou seja, além da lama, que não é novidade, estamos também atolados numa grande frustração.

Não deixa de ser oportunidade para uma reflexão que relembre os tantos desvios desta nação. Desvios que culminaram no atual contexto, em que denúncias escabrosas atingem as mais diversas vertentes ideológicas e, cada vez mais, o senso-comum enxerga seus representantes como “farinhas do mesmo saco”. Tudo isso sem revolta, já que, desde os índios, somos um povo pacato e gentil.

Comecemos a reflexão pela própria independência, quando um português resolveu “livrar” o Brasil dos seus conterrâneos, iniciando a “vida própria” do País como uma grande farsa. Veio a República, a política “café-com-leite” que limitava o comando do País a São Paulo e Minas, até que o gaúcho Getúlio quebrou o esquema com um governo ditatorial e, ironicamente, acabou eleito pelo povo, em seguida. De volta à democracia, quando ela parecia estar formando líderes, veio o regime militar de 64, que exilou, torturou e matou, destruindo a formação de lideranças, calando a participação popular. A re-redemocratização foi ainda mais pitoresca, já que vários dos que governavam no regime militar acabaram eleitos pelo povo, e muitos deles estão até hoje gozando do poder, usando a palavra “democracia” como se não a tivessem massacrado, no passado recente. Isso sem contar a tamanha disparidade de representações entre os Estados, nos parlamentos, em que os eleitores do Nordeste valem muito mais que os do Sudeste.

Hoje, sob o comando de um sindicalista de esquerda que sempre pregou soberania ao Brasil, o escárnio é dos maiores. O Brasil economizou, apenas no primeiro semestre deste ano, R$ 60 bilhões só para pagar juros a especuladores estrangeiros e banqueiros. O mais triste é que a economia, que obedece fielmente aos ditames do FMI, não vai resolver muito, já que os juros do período somaram R$ 90 bilhões. Todo esse dinheiro deixou de ser investido em saúde, educação, alimentação, transportes etc Alguém se levanta para gritar “independência”?

O autor, Marcos Brogna, é jornalista e editor-chefe do jornal O Liberal, de Americana-SP - e-mail: marcosbrogna@oliberalnet.com.br