08 de julho de 2026
Cultura

A Viagem

* Ercilia Pollice
| Tempo de leitura: 3 min

Certa vez, li num livro uma comparação da vida com uma viagem de trem. E isso me deu a convicção de que seria este o motivo de eu me emocionar tanto com um trem entrando ou saindo da gare de uma estação.

É engraçado que estações de trens, com seus arcos redondos de ferro, cheios de estilo, e aquela neblina de fumaça, mesmo que o trem não seja a maria-fumaça de minha infância, me tocam tão profundamente, como se aquilo fizesse parte de minha história, em algum momento ou em algum lugar. Talvez o famoso “dejà vu”.

A verdade é que realmente embarcamos nesse trem da vida sem bagagem alguma e nos deparamos, logo, com duas pessoas que, pensamos, nunca sairão de nossas vidas. Ledo engano, mais dia, menos dia, nossos pais desembarcarão em uma estação qualquer e nos deixarão sem o seu amor, seu carinho, sua ternura, sua compreensão.

Contudo, continuamos a seguir viagem e, ao longo dela, vamos adquirindo outros bens de grande apreço: nossos irmãos, nossos filhos, amigos queridos, nossos amores...

Alguns fazem a viagem a passeio, já outros a fazem de forma dolorosa. Há aqueles que passam de vagão em vagão, prontos a estender as mãos a quem precisar. Estes, quando desembarcam, deixam grandes saudades. Outros, porém, ao desembarcar, nem são notados.

Curioso observar que alguns passageiros que nos são tão queridos, num dado momento separam-se de nós, sentando-se em vagões diferentes do nosso. Isso nos obriga a fazer a viagem longe deles, mas não nos impede de atravessar nosso vagão e irmos até eles, de vez em quando, mesmo que seja doloroso aceitarmos que viajaremos sem eles ao nosso lado, pois outra pessoa estará ocupando esse lugar.

Essa é uma viagem cheia de atropelos, sonhos, fantasias, esperas, surpresas, embarques e desembarques. Sabemos, no entanto, que esse trem jamais volta. Nossa passagem é só de ida. Temos de nos lembrar que, durante a viagem, algumas pessoas fraquejarão e precisarão de nossa compreensão. Em outras, nós é que fraquejaremos. E, certamente, alguém nos entenderá.

O paradoxal é que, apesar dos desacertos e de todos os desencontros, queremos que nossa viagem seja longa, em companhia dos que a dividem conosco. O grande mistério é que não sabemos em qual parada desceremos, ou eles...

Sentirei saudades dos que deixarei quando desembarcar? Não sei o que dizer! Mas sei que quero que os que ficarem tenham boas lembranças e saudades de mim.

O trem, vira e mexe, diminui sua marcha para alguém sair ou entrar. Creio que essa viagem cheia de embarques e desembarques não significa apenas o nascimento e a morte mas, também, o término de uma história que duas ou mais pessoas construíram juntas e, em algum momento, por motivos ínfimos ou alheios à sua vontade, deixaram desmoronar.

Daí, então, como nossa travessia continua, precisamos de muita garra, muita esperança e fé! Vontade grande de lutar para, dali daquela estação, recomeçarmos como se tivéssemos embarcado pela primeira vez e tentarmos encontrar novos passageiros para compartilhar conosco o resto da viagem.

Gostaria de poder dizer para muitas pessoas que, embora não sejamos mais vizinhos de assentos, fico feliz por já termos um dia ocupado o mesmo vagão.

* Ercilia Ferraz de Arruda Pollice Escritora, poeta e colaboradora do Ju Machado escritório de arte.