Faz anos que a reforma agrária vem sendo um grande desafio para o governo e uma dor de cabeça para os proprietários rurais. O governo tem gasto bilhões para desapropriar terras e dar ajuda aos assentamentos e aos acampamentos. Proprietários sofrem invasões constantes e têm de recorrer à Justiça para ter a reintegração de posse. E quais têm sido os resultados? Não temos lembrança de ver relatórios e reportagens mostrando a prosperidade dos assentamentos. Às vezes são feitas feiras de hortifruti com a presença do governo. Mas é só isso para tanto barulho? Gastar tanto para ter uma pequena produção de hortaliças, abóbora e mandioca, que não dá nem para a subsistência dos assentados?
Por outro lado, os pequenos e médios proprietários agrícolas, sitiantes e fazendeiros com tradição centenária no trato da terra, lutam bravamente para sobreviver. Quando o tempo ajuda e a produção é boa, o preço não compensa. Quando fazem empréstimos, o tempo não ajuda e ficam endividados. Será que essa experiência, de gente que já é proprietária e conhece o trabalho do campo, e mesmo assim vive em permanente dificuldade, não serve para mostrar que a reforma agrária, como vem sendo feita, distribuindo pequenas glebas de terras, na maioria já exauridas, a gente sem qualquer vocação para o trabalho agrícola e sem qualquer recurso, não passa de uma ilusão?
O deputado federal Xico Graziano, agrônomo e batalhador da questão agrária, defende uma política para cuidar dos “com terra”. Em artigo no Guia Exame do agronegócio ele diz que “Velhas idéias, de direita e de esquerda, não resolvem nada. A agropecuária aguarda uma inovadora política de segurança de renda, um verdadeiro choque contra a concentração desigual”. Essa concentração desigual está nos oligopólios formados no começo e no fim da cadeia produtiva. Antes da porteira, como ele diz, está uma meia dúzia de grandes empresas produtoras de adubos, defensivos, sementes e máquinas agrícolas, que ditam o preço de seus produtos conforme as variações do mercado mundial. Se sobe o petróleo e o aço elas reajustam seus preços. Depois da porteira também fica um pequeno número de grandes empresas da agroindústria, de grupos varejistas e exportadores, que determinam o preço que querem pagar. Aos produtores resta o papel de tomadores de preços. O pecuarista vive à procura do preço da arroba do boi; assim também o produtor de soja, de milho, de laranja, de feijão, der arroz, de cana, todos querendo saber quanto estão pagando pela saca ou pela tonelada. A única coisa a fazer, quando podem, é estocar para conseguir um preço melhor, mas a maioria já vende antes de produzir por estar necessitando de dinheiro ou por não ter como estocar.
A reforma agrária, em que pese o pretenso aspecto humanitário, de dar trabalho aos desempregados urbanos, é um movimento no sentido inverso das tendências socioeconômicas deste milênio. A globalização do mercado, o desenvolvimento da tecnologia, o crescimento demográfico e a concentração urbana vêm mudando as necessidades e os costumes noutro sentido. Quem tem segurança é quem tem emprego com carteira assinada, com seguridade social, na cidade ou no campo. Fora disso, somente as profissões liberais e os negócios com renda suficiente para poupança que garanta o futuro, o que, evidentemente, não será o caso de quem ganha alguns hectares de terras sem recursos e sem experiência para explorá-las.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru