09 de julho de 2026
Bairros

Despejo gera protesto no Mary Dota

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 3 min

O despejo, ontem, de uma família do Núcleo Mary Dota que está inadimplente com a Companhia de Habitação Popular de Bauru (Cohab) gerou revolta e preocupação entre os moradores do bairro. Um oficial de Justiça, uma advogada da Cohab e policiais militares foram recebidos por volta das 9h50 com uma manifestação de moradores na quadra 1 da rua Álvaro Lopes, conhecida como rua 8. Depois de muita conversa entre policiais e lideranças da comunidade, Fátima Tanuri Alexandre, 49 anos, colocou a mudança em um caminhão e deixou o bairro em direção a casa de amigos.

A ordem de despejo foi dada pela 6.ª Vara Civil de Bauru. Tanuri não paga as mensalidades há seis meses e acumula dívida de R$ 14 mil. O presidente da Cohab, Edison Gasparini Jr., garante que a empresa tem negociado no limite do que permite o Sistema Financeiro Habitacional em termos legais. “Acabou essa história de dar um acertinho aqui e ali. Não tem como fazer isso porque o Ministério Público vai nos punir”, salienta, lamentando a situação.

A advogada da Cohab, Maria Sílvia Sorano Mazzo, garante que a mutuária foi chamada pelo Departamento Jurídico da empresa várias vezes para negociar o débito. Conforme a advogada, em junho de 2002 a Justiça emitiu a sentença de rescisão de contrato de compra e venda do imóvel e a reintegração de posse. Mesmo assim, segundo Mazzo, a Cohab ofereceu um refinanciamento da dívida em 2003. “Ela não aceitou”, acrescenta.

Por sua vez, Tanuri alega que não tinha condições financeiras para aceitar as condições oferecidas pela Cohab para a renegociação da dívida. “Eles queriam o valor total e eu não tenho”, argumenta. Ela conta que reside no imóvel desde a entrega do Núcleo Habitacional do Mary Dota, em 1990.

Ela argumenta que está desempregada há mais de quatro anos e que sua mãe, Olga Zeni Tanuri, 75 anos, é deficiente física e mental e, desde que foi vítima de atropelamento, depende de cadeira de rodas para se locomover. A única renda da família é uma pensão da Previdência Social no valor de um salário mínimo.

O momento de maior comoção entre os moradores da rua Álvaro Lopes foi quando a idosa deixou a casa. Muita gente não segurou as lágrimas ao vê-la, apoiada em uma bengala e amparada por vizinhos, sair da residência. “A gente se sente inútil diante de uma situação dessas”, revela Vera Lúcia Barbosa de Jesus, vizinha da família que ajudou a acondicionar a mudança em caixas de papelão.

Também mutuária da Cohab, Aparecida Conceição da Silva demonstrava apreensão em relação ao seu contrato. “É chato porque também já tive o pessoal da Cohab na minha porta”, lamenta. Enquanto via a mudança ser colocada no caminhão, a expressão de Maria Mercis Teixeira era de alguém que assistia a um filme em que era protagonista de um despejo. “Tenho tanto medo”, revela a mutuária, que explica que já esteve em atraso com a empresa.

Diante do risco de novos despejos, a Associação de Moradores do Mary Dota promete mobilizar os moradores para resistir às ações de retomada de imóveis pela Cohab.

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Ações na Justiça

Os despejos devem continuar porque a Cohab possui aproximadamente 1.300 ações judiciais como a que definiu a retomada da casa de Fátima Tanuri Alexandre, ontem. Edison Gasparini Jr., presidente da Cohab, explica que somente neste ano a empresa retomou 51 imóveis com ações de despejo em Bauru – pelo menos dez no Mary Dota - e mais cerca de 39 moradias em municípios onde atua no Estado de São Paulo.

Gasparini ressalta que os mutuários estão sendo chamados para a renegociação porque após a sentença da Justiça pelo despejo não há mais como evitar a perda do imóvel. Por mês, em média, a Cohab emite 310 notificações extra-judiciais.

O presidente da Cohab avalia que as medidas tomadas pela companhia já refletem queda na inadimplência, que no início de agosto era de 47%. Neste mês está em 45%. Ele explica que o valor médio das prestações está entre R$ 130,00 a R$ 280,00, mas que nos casos de refinanciamento de débito podem chegar a R$ 280,00.