Nas comunidades, a benzedeira também é chamada de rezadeira. De acordo com a obra “Mumbucaâ€, de Ivo Matos, o ministério da benzedeira ou do benzedor é rezar pelos males que afligem o povo, sobretudo os pobres. Não existe benzedeira sem que haja uma comunidade buscando suas orações. Mesmo assim, recorrem a ela pessoas de todas as classes sociais.
A obra lembra que há bênçãos para pessoas, animais e negócios. “A benzedeira reza pela paz nas famílias, para tirar cobras de uma fazenda, para se fazer boa viagem. Reza para doentes, mesmo quando estão distantesâ€, explica.
A figura da benzedeira é atrelada ainda à medicina caseira. Em muitos locais, é a ela que cabe ensinar remédios feitos com plantas, prescritos após o ritual de bênção, que costumeiramente é realizado próximo a oratórios e velas, em locais definidos como “quartos especiais para a oraçãoâ€.
Matos relata que cada rezador ou rezadeira tem seu carisma. A rezadeira idosa é procurada para aconselhar ‘menina-moça’ na puberdade. Há outras mais procuradas para tirar o mau olhado de crianças.
Durante o ritual, muitas delas relatam “pegar†um pouco do mal que faz o doente sofrer, como no caso de ‘quebranto’, que pode provocar bocejos.
Relatos incluídos no livro indicam que a rezadeira entende seu trabalho como um serviço que ela assume por tradição, em resposta à necessidade da sua comunidade. “Era assim que “siá†Critéria benzia de quebranto: fazia uma cruz com os pés da criança, rezando três vezes o padre-nosso e ave-maria; virando-a de bruços, tomava-lhe os pés bem juntinhos, sobre os quais fazia o nome do padre, e oferecia a nosso Senhor Jesus Cristoâ€, traz trecho atribuído a uma benzedeira em Minas Gerais.
Matos alerta que nem todas as benzedeiras têm aptidão de curar pela oração. Na sua opinião, a psicologia é fator importante. No caso da cura à distância, de crianças e animais, a sugestão seria feita pela fé.
E ao contrário do que sugerem os parapsicólogos, comenta o autor da obra, as rezadeiras não se consideram dotadas de forças especiais. Muitas atribuem o dom ao aprendizado com algum parente próximo, que lhes ensina as orações, os gestos e os remédios, e não gostam de passar a estranhos as palavras que rezam.
Parte desse cuidado deve-se a um histórico de discriminação advindo da Idade Média, período em que muitas rezadeiras, acusadas de serem bruxas, foram perseguidas pela Inquisição. “Hoje, o mesmo controle social é exercido em nome da medicina erudita e da psiquiatriaâ€, sustenta Matos.