08 de julho de 2026
Bairros

Bênção transcende o caráter espiritual

Sérgio Pais
| Tempo de leitura: 4 min

Ao primeiro sinal de alguma alteração no humor ou na saúde das crianças, muitas mães não pensam duas vezes em recorrer primeiramente ao auxílio das benzedeiras ao invés de procurar o serviço médico mais próximo. A prática é antiga e muito mais comum na zona rural - onde os serviços são realmente escassos -, mas acabou incorporada ao cotidiano urbano.

Isso se explica, segundo a pesquisadora em religiões populares e professora da Unesp de Bauru, Dalva Aleixo, porque a grande maioria das benzedeiras é formada por migrantes da zona rural, mesmo que de longa data.

Para a pesquisadora, a prática de benzimento foi um fator de adaptação dessas pessoas ao ambiente urbano. “Como estes migrantes poderiam gerar laços com a comunidade?”, questiona Aleixo. “Manter sua herança rural é uma forma de manter sua cultura e criar novos laços”, responde.

Provavelmente tenha sido isso que motivou a dona de casa Francisca Maria de Jesus, 65 anos, a manter em Bauru a mesma atividade que desenvolvia no sertão cearense, de onde emigrou há apenas oito anos. “Eu já rezava para crianças desde os 30 anos em Campos Sales (Interior do Ceará)”, informa dona Francisca, que diz ter aprendido o ofício com sua avó. “Hoje, todo mundo no bairro já me conhece”, admite, em referência ao Parque São Geraldo, região norte da cidade.

Mesmo mantendo a tradição familiar, a dona de casa admite que o número de benzedeiras vem caindo nos últimos anos. “Hoje já tem menos (benzedeiras) e aqui (em Bauru) tem muito pouco. No Ceará tinha muito mais”, comenta.

Dona Francisca, que se diz católica praticante e não cobra pelas sessões de bênção, assume para a comunidade que lhe pede ajuda atividades correlatas à de um médico, como a de diagnóstico. “Coloco a mão (na criança) e sinto onde ela tem dor. Então eu rezo para curar a dor de ouvido ou dor de cabeça”, explica, ressaltando que não sabe rezar para adultos.

Como a maioria das rezadeiras, a dona de casa recebe em sua casa crianças com “quebranto” e “mau olhado” e “vento virado”, males que são diagnosticados muitas vezes pelos próprios pais da criança. “O vento virado é quando a criança sofre um susto e fica com uma perna menor que a outra. Já o quebranto é uma coisa medonha, uma doença que não deixa a criança dormir”, explica.

Diagnosticado o mal, dona Francisca começa a sessão de benzimento. Segurando um galho de arruda, ela faz movimentos com a mão em volta da criança enquanto sussurra palavras inaudíveis para quem está no local.

Depois de quase dez minutos neste ritual, no qual o garoto Kauã, de 1 ano, permaneceu totalmente tranqüilo, a benzedeira revelou que reza o pai-nosso e a ave-maria e algumas orações específicas para a doença diagnosticada. “Quando ‘tá’ forte (o quebranto), a criança precisa vir aqui três vezes”, explica.

Mas e a eficácia? A dona de casa Helena Fernandes Cardoso, 61 anos, avó de Kauã, garante que “geralmente resolve”. “Desde que eles nasceram, sempre trouxe meus cinco netos para dona Francisca benzer quando eles estão vomitando ou ‘obrando’”, admite Cardoso. “Confio em Deus e nela (dona Francisca).”

Cardoso diz que também leva seus netos ao médico, porém apenas para as consultas de rotina. Mas lembra que a medicina tradicional não sabe diagnosticar certas doenças. “Eles (médicos) não entendem de quebranto e mau olhado”, avalia.

Atendimento variado

Ao contrário da dona Francisca, que atende apenas crianças, a benzedeira Maria Gonçalves, 76 anos, diz que também reza para “gente grande”. É por isso que, além de assumir muitas vezes o papel de médico, dona Maria vira também uma espécie de conselheira das muitas pessoas que entram em sua humilde casa no Parque Jaraguá. “Vem muita gente aqui, do (núcleo Otávio) Rasi, do (jardim) Tangarás”, diz, em referência a alguns bairros distantes de sua residência.

Ao lado de um pequeno e improvisado altar tomado por muitas imagens de santos e velas, a benzedeira conta que reza “para vários problemas”, que vão desde criança doente, passando por desempregados à procura de ocupação, até para “tirar gente da cadeia”. “Quando um jovem vem aqui, digo para ele sair do caminho do crime, para procurar um emprego. E eles sempre me respeitam”, conta, orgulhosa.

Ao lado da neta Camila, de 7 anos, dona Maria faz questão de ressaltar que não cobra pelas bênçãos, mas admite que muitas pessoas, quando têm disponibilidade, acabam “deixando algum dinheiro ou ajuda”, como provavelmente o tênis All Star cor-de-rosa novinho em folha que exibia ao receber a reportagem. “Eu não peço nada”, garante.

Na melhor tradição das benzedeiras, que agregam sua espiritualidade aos conhecimentos de plantas medicinais, dona Maria diz que também receita “simpatias” e remédios. Para quem, por exemplo, chega com “aguado” - segundo ela, mal que atinge a criança que não come algo que viu e ficou com vontade -, a benzedeira, além da reza, ministra um chá de hortelã.

Apesar do respeito que desfruta na comunidade do Jaraguá, dona Maria admite que a tradição das benzedeiras vem perdendo força - ela mesma ainda não formou nenhum “herdeiro” entre seus filhos. “Tá acabando (as benzedeiras), pois tem algumas que cobram. A gente tem apenas que fazer o bem”, ensina.